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Enquanto Flamengo e Estudiantes de La Plata se enfrentam no Maracanã pelo jogo de volta da semifinal da Copa Libertadores, os bastidores do clube argentino revelam posições sobre a estrutura institucional do futebol no país.
Diferentemente da maioria das equipes argentinas, organizadas historicamente como associações civis sem fins lucrativos, a agremiação de La Plata manifesta posicionamento favorável ao modelo de Sociedades Anônimas Desportivas (SADs). Sob a gestão de seu presidente, o ex-jogador Juan Sebastián Verón, a instituição mantém divergências com diretrizes da Associação de Futebol Argentino (AFA).
"O Verón assumiu uma postura corajosa de enfrentamento ao modelo de poder da AFA. Num ambiente em que quase todos preferem o silêncio, ele escolheu enfrentar o sistema de frente. analisa Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados, escritório com atuação na transformação em SAF de clubes como Fortaleza, Atlético Goianiense e Juventus-SP.
Carlezzo pontua a discussão sobre o modelo jurídico no país vizinho: "O Brasil já passou por esse debate. A SAF trouxe investimento, profissionalizou a gestão e devolveu competitividade a clubes que estavam afundados em dívidas. A Argentina não precisa copiar o modelo brasileiro, mas precisa ao menos dar aos seus clubes o direito de escolher que caminho querem seguir.
A discussão institucional integra o cenário político argentino. defende a permissão das SADs para a entrada de capital privado no esporte. A medida enfrenta oposição da AFA, presidida por Claudio "Chiqui" Tapia, que obteve decisões judiciais desfavoráveis à implementação e alterou o estatuto da entidade para prever a desfiliação de clubes que adotem investimento externo. O Estudiantes é um dos clubes de maior porte a se alinhar às propostas do governo federal.
"A transformações dos clubes em SAF em todo o mundo, e o Brasil é uma prova recente disso, retratam que é um caminho sem volta de investimentos dentro e fora dos campos, e um sinal de esperança não apenas para os chamados grandes, mas também aos menores, que passam a contar com novas receitas para incrementarem seus elencos e estruturas. É preciso, no entanto, boa gestão. Alguns clubes sul-americanos têm seguido esse caminho, mas é uma minoria. A partir do instante em que isso se tornar uma realidade, principalmente aos argentinos, creio que o nível de competitividade terá um efeito maior de equilíbrio",
Devido a protestos e manifestações públicas contra decisões da entidade máxima do futebol argentino, Verón cumpriu suspensão de três meses aplicada pelo tribunal disciplinar da AFA.
“O Brasil está à frente da Argentina no debate sobre a modernização da gestão do futebol, especialmente com a implementação das SAFs e a entrada de investidores voltados à reestruturação financeira e à profissionalização administrativa dos clubes. a Argentina ainda esbarra em resistências políticas e institucionais para implementar as SADs. o Estudiantes se destaca ao avançar na profissionalização de sua gestão, com resultados em campo que também refletem esse trabalho”, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças no futebol, com foco em reestruturação financeira e operacional.
Paralelamente às discussões regulatórias, o Estudiantes avançou em reestruturações internas. O clube estabeleceu pré-acordo de 30 anos com o investidor norte-americano Foster Gillett, prevendo o aporte de 150 milhões de dólares para reformas no Estádio UNO Jorge Luis Hirschi, ampliação do centro de treinamento e investimentos no elenco e nas categorias de base.
O modelo contratual prevê cogestão híbrida: a instituição mantém o formato associativo sob controle dos sócios, mas compartilha com o investidor percentuais de receitas de bilheteria, premiações de competições e negociações de atletas, além de adotar rotinas de auditoria e planejamento corporativo.
A reformulação do Estádio UNO é apontada como exemplo de reestruturação patrimonial. Inaugurada em 2019 após 14 anos de obras, a arena opera de forma contínua com atividades comerciais e eventos ao longo de todo o ano.
Com custo de 45 milhões de dólares, as obras foram custeadas por venda de ativos, recursos próprios e patrocinadores, com uso de 5 milhões de dólares em financiamento bancário. O local obteve a certificação ambiental EDGE e atraiu parceiros comerciais como Telecom (Flow) e Philips/Signify.
A estrutura conta com o "Mercado Uno", complexo comercial e gastronômico na base da arquibancada principal, onde funciona o restaurante León Bar & Bistro, com vista para o gramado, além de salas corporativas e estacionamento.
“O Estudiantes mostra como os investimentos internacionais e o planejamento patrimonial podem transformar a estrutura de um clube. A modernização do Estádio UNO vai além da experiência nos dias de jogos: o espaço deixa de ser apenas um palco esportivo e passa a funcionar como um ativo estratégico para a geração de receitas e a sustentabilidade financeira da instituição”, diretor comercial da Recoma, empresa de infraestrutura esportiva.
o ginásio poliesportivo do clube foi concedido por longo prazo à rede Sport Club por 1 milhão de dólares, valor direcionado ao abatimento dos custos da obra. A construção de duas linhas de camarotes VIP e assentos premium ocorreu em parceria com a empresa Experiencia Fútbol, que adiantou cerca de 6 milhões de dólares mediante cessão de direitos de uso.
Os relatórios financeiros do último exercício fiscal do Estudiantes registraram superávit de 457 milhões de pesos e redução de 21,47% no passivo total da instituição.
A massa social do clube atingiu a marca de 63. A instituição registrou ainda alta de 95% nas receitas provenientes de publicidade e marketing, destinando recursos à redução de dívidas operacionais e ao departamento de futebol.
“O cenário do Estudiantes é um bom exemplo de como o desempenho esportivo pode ampliar a base de sócios e fortalecer o relacionamento com os torcedores. o crescimento sustentável exige mais do que resultados em campo: é fundamental oferecer um atendimento rápido, aliado ao uso de dados e inteligência para compreender o público, identificar seus interesses e mantê-lo engajado mesmo após um período de bons resultados”, ressalta Henrique Borges, vice-presidente da Somos Young, empresa de inteligência artificial aplicada ao relacionamento com torcedores, que atende clubes como Cruzeiro,
Juan Sebastián Verón e o presidente do River Plate, reuniram-se no Estádio Monumental de Núñez. O encontro teve como pauta a discussão de propostas conjuntas sobre calendários do futebol argentino, receitas de transmissão de jogos e a estrutura de governança da AFA.