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O mercado de bets vive um período de apreensão e expectativa em relação aos desdobramentos da Medida Provisória (MP) que proibiu sua operação, publicada no fim de setembro. A expectativa é a sensação de que o Congresso trará de volta as apostas esportivas regulamentadas. A apreensão é porque, se isso acontecer, mas os cassinos continuarem proibidos, o impacto financeiro será irreversível tanto para o mercado de patrocínios e publicidade quanto para as próprias bets regulamentadas.
E este é o cenário que se desenha como mais provável no momento, visto que os dois candidatos à presidência e o Congresso se mostram contrários ao retorno dessa modalidade ao ambiente legal. Já ouvi mais de uma pessoa com conhecimento e acesso aos bastidores desse mercado afirmarem que há bets, e não são poucas, que chegam a ter 70% de sua receita proveniente desses cassinos on-line.
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Esses números são confidenciais e as empresas não divulgam, mas um funcionário de uma grande casa de apostas regulamentada e que investe em patrocínios no futebol confirmou que já havia no setor o entendimento de que muitas bets não sobreviveriam a um período de regulamentação de cinco anos. A MP somente acelerou o processo.
A primeira referência pública a esse percentual de dependência foi do então assessor especial da Secretaria Executiva da Fazenda para apostas, José Francisco Manssur, em 2023 (ele deixou o cargo no ano seguinte).
— O que a gente percebe no mercado é que o jogo (cassino) online representa de 65% a 70% do faturamento das empresas — disse, em dezembro de 2023, ao site BP Money.
A questão, para o esporte, é exatamente o lado financeiro. Clubes, federações e as próprias bets já trabalham com um futuro no qual o dinheiro que fluía abundante em patrocínios não manterá os patamares anteriores. As manifestações contrárias alardeiam o fim do futebol brasileiro, o que também é reduzir a discussão a um nível de banalidade desnecessário. O tema é sério e precisa ser tratado como tal.
E a gravidade, por vezes, é difícil de enxergar em meio a tantos números, a parcelas da população reduzidas a percentuais. Não é tão fácil lembrar em meio a um discurso sobre os R$ 10 bilhões de arrecadação do governo em impostos, que somente 1% da população brasileira corresponde a mais de dois milhões de vidas. Vidas. Não números. E é aí que a porca aperta.
Há uma enorme diferença entre as apostas esportivas e os cassinos online, entretanto. A primeira modalidade é a que produz riscos diretos de manipulação de resultados. É a que a extinção afeta diretamente o monitoramento por conta do ecossistema cada vez mais consolidado de troca de informações entre operadoras e autoridades.
E é a modalidade com menor incidência de vício, em relação a esses cassinos online que funcionam 24 horas por dia, todos os dias, com programação visual focada em atrair o público jovem, um dos mais impactados por esse tipo de jogo. Há o argumento de que proibir joga todos esses usuários para o mercado ilegal. E é verdade. É muito provável que um alto percentual desses jovens que já jogam migre para um mercado não regulado, onde não há regras para sua proteção.
Estudo da renomada revista "The Lancet Public Health" mostrou, em uma análise feita em 68 países, que cassinos online e caça-níqueis virtuais são as modalidades com maior incidência de vício ou jogo problemático, atingindo 15,8% dos adultos e 26,4% dos adolescentes que apostam. Adolescentes, sim.
Mesmo com a regulação, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que 66,8% dos que já fazem apostas online apresentam sinais de risco ou jogo problemático. E que adolescentes de 14 a 17 anos são os mais atingidos, mesmo com a proibição para menores de idade. Segundo o levantamento, 10,9 milhões de pessoas, ou 7,3% da população de 14 anos ou mais, apostam de maneira que já produz prejuízo pessoal, profissional ou financeiro. Deste grupo, 1,4 milhão preenche os critérios clínicos do transtorno do jogo.
Uma boa parcela dos apostadores, acredito, vai para as casas maiores, que inclusive operavam sob regulação aqui, e são mais seguras. Outros serão pegos na rede de sites golpistas criados por atacado, que chamam vítimas em grupos de mensagem, e cujos números de bloqueio só servem para falar bonito em coletiva, porque é uma tarefa no estilo enxugar gelo. Quem é do ramo sabe que muitos desses sites são criados já esperando uma derrubada rápida. Sem a prisão do dono, outro é aberto em seguida, e assim segue o ciclo. Mas aí que está: esse mercado já existia muito antes de qualquer regulação no Brasil.
Um exemplo disso: estudo recente do Instituto Locomotiva, a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) sobre esse mercado ilegal mostrou que 50% dos apostadores entrevistados revelaram já terem feito duas ou mais práticas fora da regulação brasileira, e 77% pelo menos uma, como apostar com cartão de crédito ou em sites que não exigiam biometria, por exemplo. Ou seja, a regulação não impede o acesso ao mercado ilegal. Ele está lá.
E aí me chama a atenção outro dado, desta vez de um estudo do Bradesco, mostrando que o mercado das bets cresceu 33% em 2025, a partir da regulação que ocorreu em janeiro. E fica, portanto, uma dúvida honesta que deixo para os especialistas em saúde pública, segurança e integridade do esporte: até que ponto vale a pena expor mais e mais jovens em um mercado que cresce nessa velocidade para combater um mercado ilegal que está muito presente com ou sem regulação?
A LCA estima que o mercado ilegal pouco antes da publicação da MP correspondia a algo entre 38% e 44% do total, número mais baixo do que em anos anteriores, mas ainda alarmante. E não é possível saber exatamente quanto desse mercado é de fato relacionado a apostas esportivas, ou a cassinos online.
Em relatório bastante recente, a Associação Internacional de Integridade de Apostas (Ibia, sigla em inglês para International Betting Integrity Association) detalhou em números "o que a proibição de apostas significa para a integridade de apostas esportivas, os consumidores e o mercado regulado". O relatório também não diferencia a questão dos cassinos, que aos meus olhos de leigo parece um universo diferente a ser tratado.
No item sobre "o que a proibição coloca em risco", estão a migração para o offshore com citando a previsão da H2 Gambling Capital de que 60% do dinheiro continuará a ser apostado nesse mercado sem regulação, a perda de proteções para o apostador, perda de receita pública e financiamento do esporte.
Quanto à integridade, o relatório ressalta que a Ibia reportou 25 alertas no esporte brasileiro em 2025, primeiro ano do mercado regulado, contra uma média de 11 por ano de 2021 a 2024, o que, segundo a entidade, é resultado direto do monitoramento por operadores licenciados. Mas, com uma ressalva: mesmo sem a regulação, bets com operação internacional reguladas em outros países continuam reportando à Ibia. A SportRadar, por exemplo, que faz o monitoramento de todos os campeonatos nacionais das federações filiadas da Fifa, tem contato direto com Interpol e também com a Polícia Federal brasileira.
No fim das contas, acho que fica fácil notar que cassinos online e apostas esportivas, embora convivam no mesmo ambiente virtual, são temas diferentes, com características distintas, que precisam ser estudados e debatidos separadamente. E também não dá para escapar de uma realidade que está perto de se consolidar, que é a de os cassinos online não voltarem a ser permitidos, ainda que as apostas esportivas voltem.
Os dois candidatos à presidência já se manifestaram contrários aos cassinos, mas, enquanto Lula é a favor da proibição total das bets, Flávio Bolsonaro é simpático à volta das apostas esportivas. O tema é visto, a princípio, da mesma forma pelos deputados e senadores em Brasília. E isso quer dizer uma coisa: o impacto financeiro para o futebol será irreversível. E para as bets também. Não há números oficiais, mas pelo menos os especialistas no tema com quem conversei não hesitam muito em dizer que haverá uma quebradeira em grande escala.
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E, apesar dos dados de saúde, há argumentos favoráveis à regulação mesmo para esse mercado de cassinos. O presidente do IBJR, Carlos Lima, favorável à regulação também dos cassinos, respondeu à coluna:
- A ampla maioria dos apostadores joga por diversão. O gasto líquido médio no mercado regulado em 2025 foi de aproximadamente R$ 120 por mês, um valor comparável a despesas de entretenimento. Os estudos disponíveis não permitem atribuir com precisão a dependência a cassinos online ou a apostas esportivas no mercado regulado. A regulação é justamente o caminho para produzir dados, identificar comportamentos de risco e exigir medidas de prevenção, com fiscalização e responsabilização das operadoras.