Voltar
O Corinthians reduziu em 60% os custos com a folha salarial e a estrutura das categorias de base durante o primeiro ano da gestão de Erasmo Damiani à frente do departamento.
A reestruturação envolveu cortes no número de atletas e funcionários, além de mudanças nos processos internos. Agora, com a etapa mais pesada concluída, o clube pretende concentrar esforços na formação dos jogadores.
O trabalho, porém, começou em um cenário que o próprio Damiani define como uma espécie de "segunda pandemia", em entrevista exclusiva ao UOL.
O executivo assumiu a base em meio a um período sem competições relevantes para a formação dos atletas corintianos, provocado pela saída do Corinthians do Movimento de Clubes Formadores, depois de um impasse com o Palmeiras envolvendo a contratação do jovem Pedro Morelli.
A base do Corinthians sofreu uma segunda pandemia. A diferença é que a primeira foi para todo mundo, enquanto essa segunda pandemia foi só para o Corinthians.
Damiani, ao UOL
Damiani explicou que, quando chegou ao Corinthians, em outubro de 2025, dedicou as primeiras semanas a entender o funcionamento do departamento. O levantamento passou por atletas, funcionários, logística e diferentes setores da estrutura. Parte dos problemas relatados antes de sua chegada foi confirmada, enquanto outros se mostraram maiores do que o esperado.
Quando cheguei, procurei entender o que realmente estava acontecendo. Conversei com todos os setores e percebi que precisávamos reorganizar a estrutura para tornar o departamento mais eficiente.
Erasmo Damiani
Os primeiros cortes ocorreram entre novembro e dezembro. A reorganização atingiu funções sobrepostas e categorias que mantinham mais jogadores do que o departamento considerava necessário. A ideia, segundo o executivo, era adequar a estrutura sem perder de vista o trabalho de formação.
Tínhamos pessoas desempenhando funções muito parecidas e precisávamos entender com quantos profissionais conseguiríamos executar o trabalho. Não foi um processo simples, mas era necessário estruturar o departamento.
A redução do quadro de funcionários foi de aproximadamente 13%, segundo os números apresentados por Damiani. A economia chegou a 60% quando considerados os gastos com a folha salarial e as demais despesas relacionadas à base.
O tamanho dos elencos também entrou na conta. Uma das categorias chegou a reunir cerca de 60 jogadores, segundo o executivo.
Damiani destaca que a despesa com um atleta não se resume ao salário ou à bolsa mensal.
Quando se fala em atleta, as pessoas pensam apenas no salário ou na bolsa. Mas existe alimentação, transporte, lavanderia, uniforme, plano de saúde, suplementação, alojamento e uma série de despesas indiretas.
Damiani, ao UOL
As decisões sobre a permanência dos jogadores passaram a envolver as áreas de gestão, comissões técnicas, psicologia, nutrição e captação. Com isso, o clube passou a considerar tanto o potencial esportivo quanto as necessidades de desenvolvimento de cada atleta.
O objetivo não é simplesmente reduzir números. É entender quais atletas têm potencial de evolução e qual o caminho mais adequado para cada um deles.
Além dos ajustes financeiros e estruturais, o Corinthians precisou lidar com os efeitos do período sem competições relevantes. Para Damiani, a falta de jogos de alto nível prejudicou o desenvolvimento dos jovens justamente em uma etapa importante da formação.
Imagine os meninos ficando um ano e meio sem jogar e sem confrontar um nível alto. Houve uma perda no desenvolvimento. Enquanto isso, os demais clubes continuaram competindo e evoluindo.
Erasmo Damiani
O cenário também influenciou as expectativas esportivas para a temporada. No Campeonato Brasileiro Sub-17, por exemplo, a meta inicial era terminar a primeira fase entre os oito primeiros colocados e avançar de etapa. O Corinthians, porém, encerrou a fase na segunda posição.
O objetivo era ficar entre os oito primeiros. Conseguimos terminar a primeira fase em segundo lugar, o que mostra a capacidade das comissões e dos profissionais que chegaram para o departamento.
O resultado superou a previsão estabelecida pelo departamento, segundo o executivo, em meio ao processo de reorganização e à retomada competitiva das categorias.
A redução de despesas não deve se repetir na mesma proporção na próxima temporada. Damiani afirma que a fase mais intensa dos cortes ficou para trás e que os ajustes daqui em diante serão pontuais, de acordo com as necessidades de cada categoria.
A fase mais pesada já passou. Agora é o momento de qualificar ainda mais o trabalho, melhorar os elencos, ampliar a captação e desenvolver os atletas que permaneceram conosco.
Damiani
A mudança de foco passa também pelo acompanhamento individual dos jogadores. Com grupos menores, a comissão técnica e os profissionais de apoio podem dedicar mais atenção ao desenvolvimento de cada atleta, além de estimular a disputa por espaço nas equipes.
Quanto menos excesso você tem dentro da categoria, mais consegue trabalhar cada jogador. Esse passa a ser o foco principal da próxima etapa do projeto.
Depois de um ano marcado pela redução de custos e pela reorganização interna, o Corinthians pretende direcionar a base para a qualificação dos elencos, a busca por novos talentos e o desenvolvimento dos jogadores que permaneceram no clube. A intenção é avançar para uma etapa em que a estrutura enxuta sirva de base para o trabalho esportivo.