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Em uma liga marcada por contratações milionárias, o brasileiro Maurício Dulac apostou em jovens para competir com o Al Riyadh, clube de menor orçamento da Saudi Pro League. A estratégia contribuiu para a permanência na elite e para a maior venda da história da equipe, por US$ 8,7 milhões. Em entrevista ao Lance!, o treinador explicou como a integração entre a base e o profissional ajudou a mudar a realidade financeira do clube.
— Pessoalmente, me sinto muito feliz, pois consegui mudar uma realidade financeira muito difícil do clube e também conseguimos atrair mais atletas jovens com potencial a curto e médio prazo. Hoje, o mercado sabe que a equipe do Al Riyadh dá oportunidades a jovens atletas — afirmou.
A negociação de Ahmed Al Siyahi e Sultan Haroun com o Al Qadsiah, por cerca de 8,7 milhões de dólares, representou o maior negócio da história do Al Riyadh. Para Dulac, a transferência também confirmou que a mudança na filosofia de jogo e a concessão de oportunidades a jogadores com potencial podem gerar resultados esportivos e financeiros.
A estratégia de Dulac começou a ganhar forma quando o treinador assumiu a equipe sub-21 do Al Riyadh. O período permitiu conhecer os jogadores de perto, identificar talentos e estabelecer uma metodologia para facilitar a transição ao profissional.
O técnico defende que atletas com qualidade não precisam esperar o encerramento de um ciclo nas categorias de base para receber oportunidades no time principal. A avaliação, segundo ele, deve considerar o potencial de cada jogador e sua capacidade de dar o próximo passo.
— Tenho como princípio que os jovens que possuem qualidade devem ser lançados e receber oportunidades, mas precisamos dar muita confiança para que consigam dar o próximo passo. Acredito que, quando um atleta tem potencial, ele não precisa esperar o ciclo acabar para ter oportunidades. Se vejo que ele tem potencial, busco dar essa oportunidade — explicou.
Cinco jogadores promovidos da base tiveram participação decisiva na campanha que garantiu a permanência do Al Riyadh na primeira divisão saudita. Para Dulac, o resultado foi consequência de um trabalho que envolveu não apenas aspectos técnicos, mas também mudanças de comportamento e mentalidade.
— Tudo começa com a confiança no trabalho e também nos jogadores. Felizmente, muitos jogadores que estavam comigo na equipe sub-21 receberam oportunidades e conseguiram dar a resposta certa dentro de campo. A mudança de comportamento e de mentalidade de jogo que aplicamos foi a ferramenta que permitiu desenvolver os atletas e prepará-los para assumir a responsabilidade de atuar no primeiro time — disse.
Dar espaço a jogadores jovens em uma competição com atletas experientes exige cuidado, principalmente em momentos de pressão. Dulac afirma que a decisão de utilizar cada jogador depende de sua preparação para suportar as exigências do futebol profissional, mas ressalta que o aspecto emocional também faz parte do processo.
O treinador destaca a necessidade de compreender as diferenças individuais e manter uma relação próxima com os atletas, sem desconsiderar que erros fazem parte do desenvolvimento.
— Temos que entender que nem todos são iguais e que cada jogador responde de forma diferente aos nossos estímulos. A parte mais importante do trabalho, nesse sentido, é o treinador entender que está lidando com um ser humano e que, assim como todos nós, ele está sujeito a erros e acertos. Busco conversar muito com meus atletas e entender sempre o lado humano para que eu consiga acessar, da melhor forma, a alta performance — afirmou.
O objetivo é preparar os jovens para assumir responsabilidades sem acelerar etapas de maneira indiscriminada. A metodologia, segundo o técnico, considera tanto a capacidade de desempenho quanto a maturidade emocional de cada jogador.
A transferência de Ahmed Al Siyahi e Sultan Haroun ao Al Qadsiah marcou uma mudança na relação do Al Riyadh com o mercado. Antes, segundo Dulac, o clube enfrentava dificuldades para negociar seus atletas, em parte porque seu modelo de jogo não correspondia às características procuradas por equipes de maior investimento.
A adaptação da proposta esportiva ajudou a tornar os jogadores mais atrativos e criou uma possibilidade de receita para uma instituição com recursos limitados.
— Acho que o mais importante foi entender a questão cultural do clube e, a partir disso, criar uma estratégia de performance dos jogadores através de um modelo de jogo que se adequa aos grandes clubes da Arábia Saudita. Esse foi o ponto principal. Antes, não conseguíamos vender jogadores, pois o modelo não era adequado às grandes equipes. Hoje, o modelo está adequado ao mercado que queremos atingir — analisou.
O retorno, na avaliação do treinador, vai além do valor arrecadado com as transferências. A receita também pode contribuir para melhorar as condições de trabalho, desde a estrutura salarial até a aquisição de materiais esportivos.
O trabalho de Dulac também se destaca pela quantidade de oportunidades oferecidas a jogadores sauditas em início de carreira. De acordo com os dados da Saudi Pro League apresentados ao treinador, o Al Riyadh liderava a utilização de atletas nascidos em 2005 ou depois, com 1.035 minutos acumulados até 11 de outubro, distribuídos entre seis jogadores.
O levantamento inicial, fechado em 1º de outubro, registrava 866 minutos para o clube. O Al Khaleej aparecia na segunda posição, com 225 minutos no recorte original.
Dulac explicou que a integração entre as categorias permite que os jovens mantenham uma rotina de desenvolvimento, mesmo quando não são relacionados ou utilizados pela equipe principal. Segundo o técnico, nove dos 23 jogadores do elenco são atletas sub-21.
— Temos uma boa mescla de estrangeiros experientes, mas, em um elenco de 23 jogadores, contamos com nove atletas sub-21. Eles estão sempre treinando com o primeiro time e, quando não são utilizados, jogam pela equipe sub-21. Esse processo foi muito bem alinhado entre as categorias, e os atletas entendem que faz parte do desenvolvimento — afirmou.
O treinador acrescentou que o desempenho dos jovens é tão importante quanto a quantidade de minutos recebidos. Para ele, a utilização só faz sentido quando acompanhada de evolução e capacidade de competir no nível profissional.
— Felizmente, os jogadores estão conseguindo evoluir muito bem, e nosso clube lidera a liga em minutos de utilização dos jovens. Mas não é só isso. Eles também vêm conseguindo fazer bons jogos e mostrar que têm capacidade de apresentar um bom desempenho — completou.
A aposta nos jogadores mais novos também se conecta ao desenvolvimento da próxima geração do futebol saudita. O país tem como objetivo preparar atletas para o ciclo de classificação aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, e o trabalho realizado no Al Riyadh pode contribuir para ampliar a experiência competitiva desses jogadores.
Dulac avalia que a integração entre as categorias tem avançado e destaca a evolução da liga sub-21, embora reconheça que a competição ainda passa por um processo de transição.
— Creio que essa geração sub-21 tem um grande potencial. A liga sub-21 também tem se mostrado muito forte e com bons jogadores. O momento ainda é de transição na liga sub-21, para que o jogo seja mais equilibrado, mas já houve uma melhora. Nosso projeto de desenvolvimento dos jovens, com certeza, pode ajudar a seleção olímpica — afirmou.
Dois nomes já receberam reconhecimento pelo desempenho. Essam Bahri foi eleito o melhor jovem da liga em setembro, enquanto Sultan Al Essa foi convocado para a seleção saudita sub-21 para os Jogos Asiáticos.
Para o treinador, os casos representam resultados concretos do processo de desenvolvimento. Bahri se destaca pela possibilidade de atuar em diferentes funções, enquanto Al Essa já vinha sendo chamado com frequência para a seleção de base.
— Os dois atletas estão dentro do processo do clube, sendo que Sultan já está em um nível acima, pois vem sendo convocado com mais frequência desde o ano passado. Essam é um jogador de grande potencial que pode atuar em duas ou três funções. Esse é mais um diferencial que estamos desenvolvendo no clube: jogadores com características físicas, técnicas e táticas para atuar em mais de uma função — explicou.
Apesar dos resultados obtidos com a utilização de jovens e da receita gerada pelas vendas, Dulac não considera que o Al Riyadh esteja próximo de competir em igualdade de condições com os principais clubes da Saudi Pro League.
O treinador prefere concentrar o projeto na melhoria das condições de trabalho e na capacidade de desenvolver mais jogadores, aproveitando um espaço que, na avaliação dele, ainda era pouco explorado pelo clube.
— Creio que competir com os grandes ainda está muito longe da nossa realidade, mas podemos melhorar muito as condições de trabalho para que possamos produzir mais atletas. O futebol é feito de oportunidades, e creio que nossa equipe criou uma boa oportunidade de trabalhar em um nicho que não existia até o momento. Queremos crescer profissionalmente — concluiu.
A proposta de Dulac, portanto, não é reproduzir o poder de investimento dos rivais, mas construir uma alternativa para manter o Al Riyadh competitivo: identificar talentos, prepará-los para o futebol profissional e transformar o desenvolvimento de jogadores em uma fonte de retorno esportivo e financeiro.