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Cearense que enfrentou CR7 tem coração tricolor, ‘estilo de Firmino’ e teve aulas com Suárez

O cearense Guga Gouveia, de 20 anos, enfrentou um de seus ídolos, Cristiano Ronaldo, pela 12ª rodada do Campeonato Saudita. Na saída de campo, conversou com o atacante que beira os mil gols e pediu até mesmo uma foto para seu irmão mais novo.

A quinta-feira (29) então marcou um encontro que ele guardará na memória, mas o sonho realizado não resume as pretensões do atacante do Al Kholood, nascido e criado no bairro de Fátima, em Fortaleza.

Treinado ao lado de Luis Suárez no Grêmio e parecido com Roberto Firmino em campo, como ele mesmo se define, Guga sonha em Europa e Seleção, mas quer mesmo é vestir a camisa tricolor do Fortaleza um dia.

Guga joga como centroavante, mas gosta de sair da área para participar do jogo
Legenda: Guga joga como centroavante, mas gosta de sair da área para participar do jogo Foto: Divulgação/Al Kholood

Em entrevista ao Jogada, ele conta que os planos passam pelo crescimento no futebol saudita, chegam nas grandes ligas europeias, passam pela Seleção Brasileira, mas culminam em arquibancada cearense.

"Eu tenho muita vontade de jogar na Arena Castelão lotada, com toda a minha família. Eu ainda não tive a oportunidade de jogar com eles reunidos. Meus avós, meus tios, tias. Seria um sonho jogar nela lotada, pelo Fortaleza", conta.

Na capital cearense, na infância, suas melhores lembranças tinham praias ou bola no pé: altinha na Beira Mar, férias em Flecheiras, no Trairi, e correria na Praça da Argentina, no bairro de Fátima.

Mas em Ar Rass, o treino é à noite, e a clássica panelada, ele conta, só existe de verdade no Brasil, ainda que goste da culinária árabe.

"Toda a minha família é Fortaleza"

Guga nasceu e cresceu em Fortaleza, boa parte da vida no bairro de Fátima, e o coração dele é tricolor por herança e por convivência.

Ele diz que quase morou dentro do Centro de Treinamento do clube. O tio, Roger Gouveia, preparador físico, passou mais de oito anos no profissional do Leão, rodou por Botafogo e Sampaio Corrêa e hoje trabalha no sub-20 do Fortaleza.

Guga visitava treinos do Fortaleza quando criança e chegou a fazer partidas na base do clube
Legenda: Guga visitava treinos do Fortaleza quando criança e chegou a fazer partidas na base do clube Foto: Arquivo Pessoal/Guga Gouveia

Era ele quem levava o sobrinho para perto do elenco. Era ele também quem arrumava ingresso para Guga, para o pai e para as duas irmãs, que não faltavam a nenhum jogo no Castelão.

"A gente viveu aquele tempinho de sofrência na Série C. Viveu do mal a pior, quando ia para o mata-mata e não classificava, até os bons momentos na Série A, mesmo de longe, em Porto Alegre, seguia torcendo", relata.

Guga também entrava em campo com jogadores em algumas ocasiões
Legenda: Guga também entrava em campo com jogadores em algumas ocasiões Foto: Arquivo Pessoal/Guga Gouveia

"De longe" é a expressão que organiza essa história. Guga passou a vida acompanhando o time do coração a distâncias que só aumentaram: primeiro, 4 mil quilômetros de Porto Alegre, depois um oceano e um continente.

Ainda assim, diz, "às vezes, até aqui na Arábia a gente tenta acompanhar também". Chegar ao Fortaleza um dia, ele garante, que é uma certeza: "Sei que sim".

Guga lembra com pesar os anos de Série C em que o Fortaleza foi eliminado
Legenda: Guga lembra com pesar os anos de Série C em que o Fortaleza foi eliminado Foto: Arquivo Pessoal/Guga Gouveia

O pai, o futsal e a convocação de um olheiro

A trajetória começou na escola, no colégio Nossa Senhora das Graças, e seguiu para o futsal, no Falcões da Vila, projeto do professor Júlio Negão. O pai de Guga, Heraldo Rodrigues, já tinha jogado ali. Ele ocupou a mesma escolinha, repetindo o caminho do pai.

Com "9 ou 10 anos", foi para a Futcenter, conveniada do Grêmio em Fortaleza. De torneio em torneio, passavam olheiros de todo o país. Aos 11, apareceu o do Grêmio e o convidou para um campeonato com o time de avaliação do clube gaúcho.

O Grêmio foi campeão, Guga foi artilheiro e, mesmo assim, não foi aprovado.

Voltou para Fortaleza e continuou treinando. Quase um ano depois, já com 12, veio o segundo convite. Outro bom campeonato e dessa vez a aprovação. A mudança para Porto Alegre aconteceu naquele mesmo ano.

O que mais dói numa mudança dessas não é o que se espera. Para Guga, a maior dificuldade de adaptação não foi sair do Brasil para a Arábia, mas sair do Ceará para o Rio Grande do Sul.

"Sair do calor do nosso Ceará para o frio lá do sul do país... O que eu mais sentia saudade era esse calor, das pessoas, do clima. E eu acho que foi o que também me fortaleceu pra eu estar preparado pra sair também do país", diz.

Ou seja, a mudança aos 12 anos é o que, na visão dele, o preparou para a Arábia. O sofrimento antigo virou treino para o seguinte.

Uma geração de peso

Em Porto Alegre, o menino cearense dividiu campo com nomes que hoje estão na vitrine do futebol mundial. Na base do Grêmio, enfrentou Endrick, Estêvão e Vitor Reis, que hoje estão em Real Madrid, Chelsea e Manchester City.

Na convocação para a Seleção sub-15, estava ao lado de Rayan, hoje no Bournemouth. Endrick foi chamado para a mesma convocação, mas acabou cortado.

No Grêmio, treinou e jogou ao lado de Luis Suárez, um dos ídolos ídolo da infância dele. Ficava encantando com ele nos treinos e tinha "aulas" quando o centroavante dava atenção para os mais jovens e dava dicas.

Fã de Ronaldo, Messi e "estilo de Roberto Firmino"

Na quinta-feira, o que o chamou atenção em Cristiano Ronaldo não foi nenhum lance em campo. Para ele, foi a ambição que não conhece idade.

"Mesmo ele estando com 41 anos, jogando onde ele já jogou e conquistando o que ele já conquistou, ele segue com essa ambição de querer marcar, de querer ajudar a equipe dele, de querer principalmente ganhar a partida. Não importa se fez um, se fez dois, ele tá sempre com a ambição de fazer mais", conta.

Guga cresceu vendo o português. Mas na hora de escolher entre ele e Messi, a resposta é um empate, que ele diz repetir sempre que lhe perguntam:

"O talento que o Messi tem, o trato dele com a bola, e também a admiração pelo foco, pela disciplina do Cristiano. Eu aprendo muito observando os dois", diz, indeciso.

Entre as referências, ele cita Ronaldo Fenômeno, "o melhor nove que já existiu", Suárez, com quem treinou, e Roberto Firmino que, sim, jogou no Liverpool.

Sobre o último, explica que a característica é parecida com a dele: sair da área e se movimentar, sem perder a atenção para o gol.

A vida na Arábia

Guga foi negociado com o Al Qadisiyah ainda jovem e depois foi para o Al Kholood, onde vive a segunda temporada. É a terceira no futebol do Oriente Médio.

Ao todo são 29 jogos, três gols e três assistências, todos na Arábia Saudita. Ele é o segundo estrangeiro mais novo a marcar na história da liga.

A escolha, diz, foi pensada com o futuro em vista:

"Quando eu tomei a minha decisão de vir pra Arábia Saudita, com essa liga crescendo, foi para poder atingir o mais alto nível no futuro. Sonho imenso de jogar na La Liga, de jogar na Premier League. E me vejo sim jogando na seleção brasileira principal, ganhando uma Copa do Mundo pelo Brasil", sonha.

A rotina saudita tem choques pequenos, mas diários. O treino noturno é um deles. A tentativa de manter hábitos brasileiros é outra: ele acorda cedo e toma café com a família, mesmo com a madrugada mais tarde. A comida, ele diz, é completa. Falta só a panelada.

Um retorno de vermelho, azul e branco

No fim da entrevista, a pergunta é sobre daqui a cinco anos. A resposta de Guga passa por seleção, Europa e Copa do Mundo. Depois disso, ninguém no Ceará precisa esperar cinco anos para ouvir o resto da história. Ela termina onde começou, no Castelão.

Guga jogava futsal pelo Fortaleza, para onde pensa em voltar um dia
Legenda: Guga jogava futsal pelo Fortaleza, para onde pensa em voltar um dia Foto: Arquivo Pessoal/Guga Gouveia

Na arquibancada, imagina avós, tios, tias, o pai e as irmãs. No gramado, a camisa tricolor. Depois de duas décadas de Fortaleza, Porto Alegre e Ar Rass, o ponto mais distante do mapa e o que mais importa pode ficar a poucos quilômetros do bairro de Fátima.

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