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Resumo
A nova Medida Provisória sobre casas de apostas expõe a perigosa dependência do futebol brasileiro em relação ao setor, que hoje financia campeonatos estaduais e grandes clubes. O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, alertou para o risco financeiro nos torneios, mas o próprio clube tem na Betano sua patrocinadora máster, em contrato milionário. A situação evidencia uma contradição: o esporte celebrou o crescimento dessas receitas, mas falhou em diversificar seus orçamentos.
O Flamengo está diante de uma contradição incômoda. O presidente Luiz Eduardo Baptista, o BAP, alertou para os efeitos da Medida Provisória que restringe a atuação das casas de apostas no Brasil. Mas o clube que aponta os riscos também construiu uma relação milionária com esse mercado.
Em entrevista à Flamengo TV, nesta segunda-feira (28), BAP demonstrou preocupação com a possibilidade de os estaduais perderem receitas importantes. O alerta merece atenção, principalmente para clubes menores, que têm poucas alternativas comerciais.
Mas há uma pergunta inevitável: como o futebol chegou ao ponto de depender tanto das bets?
O Flamengo é um exemplo expressivo. A Betano ocupa o espaço de patrocinadora máster em um acordo que pode representar R$ 268,5 milhões por ano, considerando as propriedades comerciais previstas no contrato.
Não é uma receita secundária. É dinheiro incorporado ao planejamento de um clube que movimenta cifras bilionárias e que também está sujeito às mudanças regulatórias do setor.
A dependência se espalhou pelos estaduais. Em 2026, a Superbet patrocinou o Campeonato Carioca e associou sua marca ao nome da competição.
Em São Paulo, a Rivalo fechou acordo com a Federação Paulista de Futebol. O contrato incluiu propriedades comerciais do Paulistão, naming rights das Séries A2, A3 e A4 e da Copa Paulista, além de ações envolvendo 46 clubes.
Em Minas Gerais, a Start Bet patrocinou oficialmente o estadual, com exposição nas placas e nos backdrops das 59 partidas. As apostas deixaram de ser apenas anunciantes para ocupar posição central na estrutura comercial das competições.
Os valores individuais desses acordos não foram divulgados publicamente. Ainda assim, a presença do setor mostra o tamanho do desafio para quem precisará substituir essas receitas.
Seria simplista atribuir exclusivamente aos dirigentes a responsabilidade pelas restrições. Cabe ao poder público estabelecer regras para o mercado de apostas, e clubes e federações têm o direito de discutir os efeitos econômicos dessas decisões.
O que não parece razoável é tratar a dependência financeira como uma fatalidade. Durante anos, o futebol abriu espaço para as bets, negociou contratos cada vez maiores e incorporou esse dinheiro aos orçamentos.
A diversificação das receitas, porém, não avançou na mesma velocidade. Enquanto os patrocínios eram vantajosos, poucos pareciam preocupados com a possibilidade de esse mercado sofrer mudanças.
O Flamengo tem motivos para defender seus interesses comerciais. Mas não pode apresentar o risco aos estaduais como um problema distante de sua realidade. O próprio clube está exposto à mesma mudança.
A ironia é evidente: o futebol celebrou o dinheiro das apostas como sinal de modernização e crescimento. Agora, diante da possibilidade de perdê-lo, descobre que não construiu alternativas à altura.