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Os jogos em solo brasileiro das competições continentais nesta semana geraram um contraste no espaço mais nobre dos uniformes.
Enquanto o Boca Juniors exibiu seu patrocinador master — uma casa de apostas —, Palmeiras e Fluminense precisaram cumprir a legislação em vigor no país: nada de bets.
No duelo brasileiro, os dois times se enfrentaram no Nubank Parque com marcas alternativas: aplicativos de estatísticas e resultados de futebol.
Em ambos os casos, são parceiros que pertencem ao grupo econômico das bets, mas entraram em outro ramo para assegurar a exposição nas camisas. Até porque tanto Palmeiras quanto Flu permanecem leais aos contratos que tinham antes da edição da MP (Medida Provisória) que baniu as bets.
Nas camisas dos semifinalistas da Libertadores foram estampados, inclusive, nomes que remetem às casas de apostas, mas ganharam cara de trocadilho: Sportingblog e Superscore.
"Se o site de estatísticas preserva o nome e a identidade visual associados à casa de apostas, o potencial de reconhecimento da marca continua presente. Do ponto de vista do marketing, o conteúdo esportivo pode manter a conexão com o torcedor mesmo sem uma oferta direta de apostas. Para o clube, isso pode ajudar a preservar receitas, mas a sustentabilidade desse modelo depende de segurança jurídica", diz Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo.
No caso do argentino Boca Juniors, que encarou o Vasco no Maracanã, pela Sul-Americana, o peito estufado da vitória argentina tinha Betsson.
No Brasil, a marca cumpre a determinação do governo federal. Quando o antigo site é aberto, o usuário se depara com a seguinte mensagem:
"Em cumprimento à nova regulamentação (MP 1394/2026), a Betsson está temporariamente indisponível no Brasil".
Nos bastidores, as entidades que representam as casas de apostas entendem que há uma zona cinzenta. Até porque a MP não trata diretamente dos casos de clubes estrangeiros que venham jogar em solo brasileiro e tenham contratos em vigor com as bets.
"O IBJR não pode avaliar ações realizadas por empresas individualmente, especialmente nos casos em que envolvam clubes estrangeiros e contratos estabelecidos no exterior.", disse Carlos Lima, presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR).
Quem tem contrato lá fora e pisa no Brasil se agarra à premissa implícita de que as regras do governo federal só abrangem relações comerciais brasileiras. No aspecto publicitário da questão, é como se a propaganda do Boca não tivesse impacto porque a Betsson não presta serviço no Brasil.
Mas nem todo mundo pensa assim:
"O que importa juridicamente é que a marca foi exibida em território brasileiro e vista pelo público brasileiro. Pela própria MP, esse tipo de exposição é considerado publicidade abusiva, o que atrai as sanções do Código de Defesa do Consumidor, sobretudo multas administrativas", diz Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo.
"Como a MP não contempla exceções, a vedação se aplica a todos os Clubes que venham disputar partidas no território nacional. A lógica é a mesma de qualquer outra lei, ou seja, quem vem de fora deve cumprir as normas locais, sob pena de sofrer as respectivas sanções. No caso do Boca Juniors, a instituição poderá ser multada pelo descumprimento ou até mesmo impedida de disputar partidas no Brasil caso não se comprometa a ocultar o patrocínio de seu uniforme em partidas futuras", afirma Pedro Lopes, advogado que é sócio-fundador do PPLlaw, escritório jurídico, e também da Chenus Holdings, empresa de investimento no esporte.
A Conmebol, pelo menos, tirou as bets das placas de publicidade estática nos estádios brasileiros, mas exibe virtualmente os patrocinadores do setor lá fora.
O Boca veio, viu o cenário e venceu no Maracanã. Com bet e tudo.