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Até um egocêntrico com mais auto-estima do que discernimento como ele é capaz de perceber que nasceu uma nova era na seleção
Porque é que o Ricardo Carvalho apanhou um ano de suspensão por abandonar os trabalhos da selecção e Ronaldo só apanhou 30 dias? A pergunta anda por aí e a resposta é: porque este é um castigo feito por medida, para permitir a chamada de Ronaldo na convocatória de Novembro. Estes dois jogos que faltam, com o apuramento decidido, são os ideais para o reintegrar, pensa Proença. Eram mesmo os jogos que lhe estavam destinados por Jesus, no tal acordo privado; e assim se prepara a sua despedida, antes que venham os jogos a sério, a eliminar. E se for esta a ideia, não está mal pensado. Se não for, está o caldo entornado.
Por sua vez, os 255 euros da multa deram à coisa um ar anedótico. Multiplicaram-se os memes com peditórios para ajudar Ronaldo a pagar a multa. Houve mesmo quem o pusesse a meter garrafas vazias no Volta. E contou-se o tempo de que ele precisava para ganhar o dinheiro da multa: 28 segundos. Em Espanha, um comentador televisivo lembrou que era mais caro pôr o lixo fora de horas na rua, o que pode custar 300 euros.
Volta, que estás perdoado, diz o presidente da FPF. E também que "todos sem excepção querem o regresso de Ronaldo". Bela mentira. Duvido que a maioria dos jogadores o queira de volta, apesar de dizerem o contrário, que é o que lhes mandaram dizerem. E os portugueses também não querem (mais de 70%), dizem as sondagens. E fazem-no por terem visto com os seus próprios olhos que a equipa sem ele é outra, para muito melhor. Há memes em que Jesus surge no papel de Salgueiro Maia, derrotando o fascismo, perdão, o ronaldismo. E não vimos nós os jogadores, em Copenhaga, a jogarem como se fossem prisioneiros que tinham acabado de recuperar a liberdade?
Porém, o imbróglio Ronaldo-Jesus-Proença continua ensarilhado. Tem sido desastrosa a prestação dos três protagonistas deste folhetim a que temos assistido e que bem poderia usar o título de um velho filme cómico: "Os três estarolas".
E agora? O que se segue? Pois bem, é certo que Ronaldo vai ser convocado. Sem o dizer, Proença já o disse. E Jesus tanto diz "quem manda sou eu" como diz "o Cris é que decide".
E o que decide o Cris? É quase certo também que, do alto da sua soberba, vai recusar o presente. Até um egocêntrico com mais auto-estima do que discernimento como ele é capaz de perceber que nasceu uma nova era na seleção, da qual já não faz parte, quanto mais mandar em tudo, como aconteceu até aqui.
Será, pois, este o desenlace possível do folhetim, depois de tantos falhanços e trapalhadas dos três estarolas. Cada qual o pior. Mas - calma! - se assim for, salva-se o mais importante e que é o futuro da selecção. Eis, pois, o final feliz. O acaso, por vezes, faz bem as coisas.
Com a deserção de Ronaldo desapareceram 300.000 seguidores? Alguns patrocinadores encolheram-se? Deixou de haver gente com camisolas do CR7 à porta dos hotéis? Sim, mas o que é isso comparado com a conquista de uma equipa? Afinal, estamos a falar de futebol e só de futebol, não de mitologia ou de economia e finanças.