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VELUDO AZUL - Um artigo de opinião de Miguel Guedes
1 Sevilha, que já foi altar de uma das mais bonitas consagrações europeias do FC Porto, resolveu trocar a celebração pelo desalento, como se a memória da Taça UEFA conquistada em 2003, naquele palco andaluz, tivesse decidido enveredar pela crueldade. O futebol, mesmo quando parece encaminhar-se para a justiça dos nossos merecimentos, conserva sempre uma reserva de comparação à lupa capaz de transformar uma noite de afirmação numa derrota que foi bem difícil de engolir.
Convém não confundir infelicidade com incapacidade. É verdade que o FC Porto esteve longe de fazer uma primeira parte brilhante, permitiu ao Bétis crescer, sofreu com a qualidade individual dos seus jogadores e teve momentos em que pareceu mais preocupado em resistir do que em mandar, mas nem por isso deixou de criar as ocasiões mais claras antes do intervalo, com André Silva a acertar na barra depois de uma oferta de Álvaro Valles e com Martim Fernandes a ver esfumar-se, por intervenção do VAR, um grande golo que já parecia escrito. Mas a exigência portista nunca se pode satisfazer com a consolação de ter estado perto.
Os segundos 45 minutos demonstraram que esta equipa tem capacidade para mais do que se esconder do jogo. Ao golaço de Abde respondeu Gabri Veiga, e o golpe seguinte veio de Samu com um remate que parecia transportar toda a fome acumulada. Durante alguns minutos, o FC Porto esteve por cima, competitivo, corajoso e suficientemente afirmativo para acreditar que Sevilha voltaria a ser sua. Poderíamos ter marcado o terceiro. Como se percebeu na última jornada nacional, o futebol pode decidir-se nos centímetros, sendo que Valles também resolveu transformar a compensação num exercício de crueldade, negando a Gimenez e a Kiwior o empate que ainda parecia possível.
Não há tempo sequer para transformar frustrações em lamentos quando faltam seis jogos nesta fase da Liga dos Campeões. Contra o PSV, o FC Porto tem de responder com futebol, concentração e com a urgência de quem sabe que a Liga dos Campeões não concede créditos a quem vive de boas intenções. A segunda parte de Sevilha deixou sinais que merecem ser potenciados e erros que devem ser corrigidos. Alguns deles, óbvios.
2 O Conselho de Disciplina arquivou a queixa do Benfica sobre o clássico do Dragão, e é difícil não reconhecer alguma grandeza cómica a esta tentativa de prolongar nos gabinetes um jogo que, dentro das quatro linhas, terminou com um inequívoco 3-1. A derrota não foi submetida a uma espécie de recurso sentimental, foi revista lance a lance até que a realidade, vencida pelo cansaço, aceitasse finalmente mudar de opinião. Os encarnados foram à procura de castigos, mas encontraram um processo arquivado, mantendo a dificuldade em aceitar que há noites em que o adversário é simplesmente melhor e não há expediente disciplinar que retire os golos ao jogo. Cada clube escolhe a sua maneira de lidar com a derrota.