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A primeira pedra do Seixal foi lançada a 14 de janeiro 2000, durante o período mais crítico da história do Benfica. Seis anos e meio, alguns atrasos e duas presidências depois, o centro de estágios do Benfica foi inaugurado.
Hoje, a 22 de setembro de 2026, assinalam-se duas décadas da inauguração formal de uma das maiores fábricas de talento do país, produtora de campeões nacionais, da Europa e do Mundo e geradora de muitos milhões de receita.
A pretexto desta data, o Maisfutebol entrevistou Guilherme Müller, diretor-geral do agora adidas Benfica Campus. Nesta última parte de uma conversa de cerca de duas horas no seu gabinete com vista para o campo n.º 1 do Seixal, o dirigente desbruça-se sobre os seus quase dois anos em funções e explica por que razão o clube passou de uma época de pleno sucesso nos escalões de formação em 2024/25 para uma em que não conquistou qualquer campeonato nacional. «Em 2025/26 tentámos fazer uma alteração de paradigma. (…) Essa foi uma época, para não dizer a época, em que quisemos respeitar verdadeiramente a nossa missão. E a nossa missão é desenvolver talento.»
Maisfutebol – Há poucos anos era diretor-geral da SAD do Estoril e em 2024 assumiu funções enquanto diretor-geral do agora adidas Benfica Campus. Quais são os principais pontos de contacto entre essas duas funções e as maiores diferenças que encontrou?
Guilherme Müller – Seria uma resposta longa, mas vou tentar concentrar-me nos principais aspetos. Não quero ser mal-interpretado, mas o adidas Benfica Campus funciona quase como um clube dentro de um clube. É uma estrutura dentro de uma estrutura maior. O nível de autonomia que nós temos e a abrangência de funções que aqui são exercidas permitem que isto funcione quase como um clube dentro de um clube em que a nossa equipa principal, entre aspas, é a equipa B e depois temos os restantes escalões por aí abaixo até aos sub-14. Nesse sentido, a diferença não foi muito grande, porque como diretor-geral no Estoril, a SAD tinha duas equipas sob a sua administração – a equipa principal e sub-23 – e depois uma relação muito próxima com os escalões de formação, que ainda estavam formalmente no clube. O tipo de funções de direção-geral não é muito diferente. O que varia é, acima de tudo, a escala. Porque este clube dentro do clube tem mais pessoas, mais recursos e mais valências do que havia no Estoril. Mas o setor é o mesmo, os objetivos são os mesmos, a dinâmica de trabalho é a mesma e tive a sorte de encontrar profissionais altamente qualificados e que facilitaram muito a minha integração na estrutura. Em termos conceptuais há diferenças, mas a prática do dia a dia não é muito diferente.
Que balanço faz destes dois anos e da forma como o Benfica Campus tem evoluído desde que chegou?
Esta é a minha terceira época nestas funções. Acho que há três ou quatro aspetos que vale a pena salientar. A minha primeira época, em que eu não entrei no início e ela já estava planeada com o excelente trabalho do professor Pedro Mil-Homens, foi uma época de grande sucesso desportivo. O Benfica fez o pleno nos escalões de formação e pela primeira vez conquistou um título na equipa sub-23. Isso valida o nosso processo e é uma altura de grande satisfação a que se junta o título europeu sub-17 que não sendo um mérito total do Benfica, é parcial porque tinha um número significativo de jogadores formados no Benfica que contribuíram para essa conquista. Desportivamente, foi um ano muito feliz que foi concluído com uma série de integrações de jogadores na equipa A.
E o segundo ano?
Foi um ano difícil, porque tentámos fazer uma alteração de paradigma. É verdade que houve sempre ciclos de jogadores, mas o que tentámos fazer, e isso aconteceu, foi baixar significativamente a idade da equipa B.
E isso acabou por ter reflexos nos resultados desportivos dos escalões abaixo?
Sim. A nossa equipa que tinha sido campeã de iniciados (sub-15) no ano anterior acaba por ser campeã de sub-16 no ano seguinte e a geração de 2008, que nesse ano estava nos sub-17, foi dispersa por todos os escalões de transição profissional: houve jogadores que ficaram nos sub-19, nos sub-23, na equipa B e houve jogadores que foram diretamente para a equipa A. Isto é fabuloso, mas é uma daquelas coisas fabulosas que dificultam a gestão. A decisão que tomámos foi: vamos encarar isto como uma oportunidade e não como uma dificuldade. Decidimos criar um acelerómetro para o talento. Baixámos drasticamente a idade média da nossa equipa B, sabendo que teríamos dores de crescimento principalmente na primeira fase de uma época que acabou por ser concluída com sucesso, ainda que tenha esses inconvenientes desportivos ou dores desportivas nos escalões daí para baixo.
Portanto, não foram propriamente surpreendidos com o facto de que de uma época de sucesso pleno na formação se tenha passado para uma época sem qualquer campeonato nacional conquistado. Já esperavam que isso pudesse acontecer tendo em conta essa alteração de paradigma?
Claro que ninguém tem a certeza no início da época se vai ganhar ou não vai ganhar um título. Não posso falar pelos tempos antes de eu chegar, mas este é o meu entendimento: esta foi uma época, para não dizer a época, em que quisemos respeitar verdadeiramente a nossa missão. E a nossa missão é desenvolver talento. Não deu para formar a ganhar, mas sentimos que em termos de formação de jogadores o desenvolvimento foi muito significativo. Temos dados de que em 32 das 34 jornadas da II Liga nós fomos a equipa mais jovem. A nossa média de idades não chegava aos 19 anos e competimos contra uma média de idades de 26/27, que é uma diferença muito significativa para jogadores que estavam habituados a jogar contra jogadores, no máximo, um ano mais velhos. Isto é significativo, mas o que tentámos foi desafios mais duros e mais cedo para jogadores mais novos. Reconhecendo aquilo que achávamos que era a capacidade, o talento e o potencial deles. Acabámos por fazer uma II Liga bastante razoável com estas dificuldades [n.d.r.: 10.º lugar]. Dos 28 jogadores do plantel, 20 eram juniores e ainda tínhamos alguns jogadores a jogar em contexto de equipa A. As equipas sub-23 e sub-19 sofreram um bocadinho nesse sentido, porque não só tiveram jogadores que saltaram diretamente estas etapas como isto obrigou também a baixar a média de idades destes dois escalões e também aí fomos das equipas mais jovens. Mas há um dado que é significativo e que traz alguma imparcialidade a esta análise porque é mais objetivo: continuámos a dominar de forma clara o número de jogadores que são convocados para as seleções nacionais em todos os escalões. Acho que isso é o reconhecimento do nosso talento e valida que a nossa missão principal, que é desenvolver talento, independentemente de não termos conquistado o título X ou Y.
Acha que os adeptos percebem na generalidade que se comprometa a luta por campeonatos em prol dos objetivos que mencionou? Para muitos, uma derrota com um rival, mesmo em contexto de formação e com as atenuantes de ser ter uma equipa bem mais jovem, é sempre uma derrota com um rival.
Eu antes de ser diretor-geral do futebol de formação era adepto do Benfica e, por isso, consigo calçar com muita facilidade os sapatos dos adeptos e compreender isso com muita facilidade.
Mas…
Mas nestas funções tenho de pôr o meu chapéu de adepto aqui pendurado no cabide durante um período e pôr o meu chapéu de responsável desta formação e que tem objetivos muito claros e uma missão muito bem definida. Alguns resultados negativos custam-me tanto ou mais do que ao mais fervoroso dos adeptos, mas é nesses momentos que temos de avaliar se a nossa missão está a ser cumprida e se sentimos que estamos a fazer o melhor para o desenvolvimento dos nossos atletas. Tem de valer mais para nós, como eu espero que possa valer também para a maioria dos adeptos do Benfica, a chegada à equipa A de um atleta preparado vindo da formação do que um título nacional de iniciados ou de juvenis. Ainda assim, claro que me custa e claro que prefiro que cumpramos a nossa missão de formar, mas a ganhar. Esse é um desígnio do Benfica desde sempre e que nós respeitamos. Umas vezes conseguimos juntar isso, noutras infelizmente não, mas não podemos prescindir da nossa missão. E, se tivermos de prescindir de um título a bem de uma gestão criteriosa de desenvolvimento de talento, eu aí escolho o desenvolvimento do talento porque a nossa missão é essa e é por aí que vamos enquanto a nossa missão não mudar. Mas confio muito que com o talento que temos e com os passos que demos, o Benfica não ganhou no ano passado, mas continuará a ganhar porque temos talento e capacidade para isso.
Que mais se tem feito de diferente no Benfica Campus, nos últimos tempos, em termos de metodologia direcionada para a formação?
A nossa principal missão é desenvolver jogadores e prepará-los para responder às exigências do futebol de mais alto nível. Esse desenvolvimento tem várias dimensões e, naturalmente, a componente técnica é uma delas. Acreditamos que uma base técnica individual muito sólida dá ao jogador mais recursos para interpretar e resolver as diferentes situações que o jogo lhe coloca, e por isso é uma área à qual damos uma atenção muito específica ao longo de todo o processo de formação. Foi dentro desta lógica que, há cerca de dois anos, criámos no Benfica Campus um programa específico de desenvolvimento técnico individual. O objetivo é complementar o trabalho realizado no contexto coletivo das equipas com um trabalho mais individualizado, que permita identificar e desenvolver aspetos técnicos em função das características, necessidades e potencial de cada jogador. Ao longo destes dois anos fomos consolidando o programa, adquirindo experiência e percebendo como poderíamos aumentar o seu alcance. Nesta época reforçámos a estrutura dedicada a este trabalho, o que nos permitiu alargar o programa a mais escalões. Hoje, todos os jogadores do Adidas Benfica Campus estão abrangidos por programas de desenvolvimento individual, naturalmente ajustados à idade, à fase de desenvolvimento e às necessidades específicas de cada um. É mais uma ferramenta ao serviços daquela que é a nossa missão central: desenvolver jogadores e criar as melhores condições possíveis para que cada um possa maximizar o seu potencial.
Que impacto teria para a formação do Benfica, e isso não esteve assim tão longe de acontecer, a equipa sub-19 ter falhado o apuramento para esta edição da UEFA Youth League?
O Benfica esteve presente em todas as 14 edições da Youth League e tem o recorde, juntamente com mais duas equipas, de presenças em final-four. É uma competição muitíssimo estimada pelo Benfica, tendo ganho inclusive em 2021/22. Neste momento, pela forma como o formato está definido, há dois caminhos para lá chegar: o do caminho dos campeões e o caminho de acesso da equipa A. É desejo de todos que a equipa A esteja presente na Liga dos Campeões todos os anos. Para nós, além de querermos muito que isso aconteça pelo bem do Benfica, queremos também muito egoisticamente que isso aconteça pelo nosso bem. O que temos de tentar fazer sempre, e espero que sejam muito poucos anos em que isso não aconteça, é tentarmos fazê-lo através da conquista do título de juniores. Que no ano passado não aconteceu, mas ainda assim acabámos por seguir por esse caminho ficando em segundo lugar no campeonato. Mas é uma prova muito querida por nós na formação do Benfica e à qual reconhecemos, pelo nível de exigência, visibilidade e interesse desportivo, como uma peça essencial no nosso processo de desenvolvimento de jogadores.
Mas falhar a participação numa edição da Youth League criaria ainda mais desafios à estrutura da formação do Benfica na questão da retenção de talento ou no recrutamento lá fora de jovens jogadores?
Acho que não. Para o jovem jogador de talento que temos ou que precisamos de recrutar, espero eu, o seu objetivo é chegar à equipa A do Benfica. Se pelo caminho puder passar pela Youth League, melhor ainda, mas o que caberia a nós seria tentar, num cenário que não quero imaginar, encontrar outras ferramentas que pudessem ajudar a compensar o facto de não estarmos presentes na Youth League. Felizmente, temos à nossa disposição a possibilidade de aceder a outros contextos competitivos que suprissem a falta da Youth League, que é um contexto que reconhecemos de grande qualidade para o desenvolvimento dos jogadores. Era mau, mas não acredito que perdêssemos um jogador por não jogar a Youth League.