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Há paixões que se herdam e a de Mateus Jorge chegou-lhe do pai, caçador e armeiro, que cedo o levou para o mundo das armas, das munições e dos campos de tiro. Aos 14 anos, o jovem micaelense começou a praticar tiro aos pratos e quatro anos depois está a um passo de vestir as cores de Portugal e ostentar as “quinas” ao peito.
O convite surgiu durante o 5.º apuramento para o Campeonato do Mundo de tiro aos pratos, disputado em Mira.Custódio Ezequiel, o selecionador nacional de fosso olímpico, já seguia as prestações do jovem açoriano, gostou do que viu e perguntou-lhe se queria tentar o acesso à seleção.
“Para o ano estarei na seleção”, afirma Mateus Jorge ao Açoriano Oriental, com a confiança de quem sabe o que vale, mas também com a consciência do trabalho que falta fazer.
O currículo do jovem atleta do Clube Desportivo de Tiro de São Miguel (CDTSM)já é extenso. Em 2024, sagrou-se campeão nacional da Taça de Portugal. É tetracampeão açoriano de juniores e, por várias vezes, conquistou o título de campeão de São Miguel. Nos últimos campeonatos regionais ficou com o segundo lugar, tanto no Pico como em São Miguel, na modalidade de fosso olímpico.
Quatro provas no continente
O processo de seleção ainda depende do calendário oficial da Federação Portuguesa de Tiro com Armas de Caça para 2027, que Mateus Jorge ainda não conhece. Em princípio, o atirador micaelense vai ter de disputar no continente quatro provas nacionais obrigatórias para depois aspirar a uma competição internacional. A distância é, por isso, um desafio logístico. Ainda assim, Mateus Jorge não encara este fator como um obstáculo.
O facto de o pai ser armeiro garante-lhe o acesso a equipamento, cartuchos e todo o material necessário, algo que, fora de um contexto familiar assim, pode pesar no orçamento de um jovem atleta. E enquanto o pai trata de tudo, a disponibilidade para treinar também não falta.
Neste momento, Mateus Jorge treina, sobretudo, ao sábado e ao domingo nas instalações do CDTSM. Em época de competição junta-lhe duas ou três sessões durante a semana, mas com a seleção nacional no horizonte o plano vai ter de mudar.
“Vou ter de treinar mais três ou quatro vezes, para além de sábado e domingo”, explica, sublinhando que a partir de agora “tenho de treinar o dobro para ser melhor do que já sou”.
Mateus Jorge reconhece que tem boas possibilidades, descrevendo-se como um atirador que “atira relativamente bem”, mas sem deixar de olhar para a exigência da fase competitiva que aí vem.
Para o jovem atirador da ilha de São Miguel, a sua presença nas competições nacionais tem também um valor que ultrapassa o resultado desportivo.
Mateus Jorge acredita que pode inspirar outros jovens a descobrir o tiro, uma modalidade que, admite, muita gente desconhece e que por vezes carrega uma imagem negativa. A resposta é simples: “É apenas um desporto como todos os outros, só que é praticado com armas de fogo”, realça.
Entretanto, e se tudo correr como espera, 2027 poderá ser o ano em que um atirador de São Miguel passa a representar Portugal. Para Mateus Jorge, seria muito mais do que uma conquista pessoal; seria a prova de que, mesmo a meio do Atlântico, é possível chegar à elite nacional do tiro.