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Cristiano Ronaldo vê Jesus como Judas e dá uma folga a… ‘São Pedro’

O comunicado de Cristiano Ronaldo deve ser lido nas linhas e nas entrelinhas. Nele, fica claro que Cristiano vê Jesus como Judas e que – mesmo passando pelo (castigo do) inferno –, aconteça o que acontecer, já tem, bem vivo, a chave do Céu, onde está a ‘instalar-se’. Para já, está a dar uma ‘folga’ a ‘São Pedro’ [Proença] que fez tudo para o agarrar quando ele já tinha tudo preparado para a despedida.

1.Há praticamente duas semanas, nos intervalos daquilo que ia dizendo sobre a importância de perceber Cristiano Ronaldo, até antes ainda da chegada de Jorge Jesus, incentivei o ‘capitão’ da Seleção a não desistir. A ‘bomba’ ainda não tinha explodido. E, de facto, nessa altura, parece que estava a adivinhar o que ia acontecer, porque afirmei mesmo sem reservas: «Não sei se estás preparado, não cedas à tentação de abandonar a Seleção, porque estás a escrever nela uma história muito bonita e, nesta fase final da tua carreira, não vale a pena construir mais um caso. Aceita os teus 41 anos, (…) Não desistas e não faças nada para aumentar o número daqueles que, precoce e injustamente, desistiram de ti. 90, 60, 15 ou 0 minutos. Deixa isso com o Jorge Jesus, que tem 72 anos e subiu a corrida a pulso como tu!».

2.’Cris’ estava inflamado, convicto de que havia compromissos que não haviam sido cumpridos. A ‘bomba’ deflagrou e o ‘capitão’ abandonou o estágio da Seleção, algo que nunca deveria ter acontecido, o que Cristiano Ronaldo agora acaba de reconhecer, num comunicado que também fica para a história.

3.Não sabia exata e objetivamente o que se ia seguir após a ‘deserção’ mas há quinze dias já tinha dados suficientes, alguns absorvidos durante o Mundial, para perceber que a ‘mina’ podia rebentar debaixo dos pés do ‘capitão’. E rebentou, evidentemente com algumas culpas próprias.

Ronaldo tem os seus assessores, um grupo mais restrito, os seus empregados, tem a liberdade de pagar – seja com dinheiro ou outras mordomias o que lhe apetecer – mas sabe que da minha parte teve sobretudo a mais pura admiração. Não a admiração conveniente de quem comenta na estação de televisão que ele decidiu comprar, vamos ser sinceros, para acabar com certos abusos (que nalguns casos continuaram e noutros casos foram transformados em submissão) mas a admiração de quem percebe o que custa, efetivamente, construir tudo aquilo que construiu com base no seu talento e no esforço real. E a preocupação, através da palavra, e portanto num plano reduzido de intervenção comparado com os Morgans desta vida, foi tentar traduzir a ingratidão que aqui em Portugal, injusta e precocemente, usaram contra o atleta mais relevante da história do desporto português.

4.O ‘monumento’ que construiu (não me refiro à estátua que lhe fizeram no Funchal) gerou maledicência, comentários gratuitos de quem, através da crítica, queria virar os holofotes para si próprio, sem deixar de considerar que a crítica é legítima, desde que percebamos que não há uma razão persecutória por trás delas, porque quem as faz também não percebe a insignificância do seu papel perante uma obra que só está ao alcance de pessoas de facto muito especiais. Como Cristiano é, à escala mundial,

num patamar que faz confusão

a muita gente.

5.Cada um reage como entende e sabe, mas para um homem que fez a carreira que fez, compra aviões, fala com o príncipe herdeiro saudita, vai à Casa Branca e interage com Donald Trump, e que ainda por cima validou a entrada de Jesus no Al-Nassr e na Seleção, não tem o mínimo espaço mental para tolerar aquilo que considerará – em excesso – um tipo qualquer da Amadora (para mim, a grande Amadora) que vem para aqui a achar que é o dono disto tudo. É assim que o Cris pensa: este tipo se é dono de alguma coisa é apenas da chiclete e já devia saber disso depois de tudo o que se passou com o Queiroz, com o Paulo Bento, com o Fernando Santos e com a doçura do Roberto Martínez. E ficou muito revoltado com as coisas que iam sendo acertadas entre ele e Jesus, porque depois chegava às conferências de imprensa e o que passava era que o selecionador fazia e tinha autonomia para fazer aquilo que lhe apetecesse, mesmo depois das conversas mantidas com o ‘mediador’ Simão Coutinho e a participação de Tiago Craveiro por videochamada, Mesmo que Jesus – à sua maneira – tenha verbalizado algumas das coisas faladas, sem passar pela humilhação de ler os tais 8 pontos que constam do documento-guião para o ajudar na concretização do ‘acordo de paz’.

6.Não posso deixar de ser sincero até pelo que, repito, vi no Mundial: Cristiano tem muita gente autêntica que o adora, fãs verdadeiros, que reconhecem que a sua singularidade , cujo reconhecimento é maior noutros países, infelizmente, do que em Portugal, mas há muita hipocrisia no meio disto tudo. No Mundial, sempre que a comitiva entrava ou saía do autocarro, a caminho dos treinos ou dos jogos, era fácil adivinhar o que ia na cabeça dos colegas, do ‘staff’ e até do presidente quando só se ouvia gritar pelo nome do ‘capitão’. Pela sua dimensão universal devia ser normal, não era?, a consagração de uma lenda, de alguém que fez por Portugal aquilo que ninguém ou poucos fizeram? Mas não. Cristiano tem inteligência suficiente para perceber, ainda que com dificuldades em aceitá-lo, que o presidente (mesmo com os problemas que tem) precisa de recentrar o poder na FPF. Que Bruno Fernandes conquista maior espaço, e mesmo outros jogadores, na ausência de Cristiano. O mesmo acontecendo com Gonçalo Ramos que precisa de mais espaço para fazer mais minutos e golos como titular, aliás como os está a marcar. Neste quadro, alguém pensa na consagração de Cristiano Ronaldo? Eu sei como muitos reagiram (ou não reagiram) quando quis fazer um Movimento inclusivo a favor da consagração de CR7, enquanto símbolo de Portugal, no Campeonato do Mundo, independentemente do ‘timing’ da despedida. E fiquei logo com a sensação de que Cristiano não se podia iludir com um apoio que era apenas fingido ou teatralizado. Falso, até, com algumas boas exceções.

7.… E digo mais: eu próprio acho que Cristiano Ronaldo, mesmo validando o documento que foi tornado público com a sua posição, depois de ter constatado a desistência de quem não esperava ver desistir de si próprio, já percebeu que muito poucos querem, efetivamente, o seu regresso. Porque ele iria constituir, em tese, mais uma fonte de problemas, sobretudo agora que toda a gente já assimilou que há uma seleção sem Ronaldo e com um treinador exigente e duro como as pedras, que só vai em cantigas, até ao limite que ele impõe e que ficou, de novo, claro depois do jogo no Dragão.

Pode ser uma injustiça? Pode!

É a maior prova de incompetência da história do futebol português, na forma como se deixou que tudo isto acontecesse? Sem dúvida! Viu-se algum grupo de jogadores, devidamente organizado e munido de um motor de amizade e consideração sinceras, tomar alguma posição que fizesse estremecer as paredes da FPF? Nada, não é?

8.Eu não desisti de ti, Cristiano, muitos não desistiram de ti, mas queres a verdade? SIIIIIIIIM, muitos já desistiram de ti. Estão cansados da tua sombra! Estão cansados da tua influência. Estão fartos e cansados de levar contigo.

9.É duro? É o que é e, sinceramente, o teu comunicado abre portas sobretudo à tua consciência (bem nas desculpas apresentadas!). Vejo-te mais a tratar do teu futuro do que a procurar mais um momento de glória junto da Seleção que sempre amaste. É patético, é até ridículo e ilógico? Sim! Mas este é o Mundo em que vivemos e esta é a mentalidade de um país permanentemente adiado. Porque poucos reconhecem os méritos e muitos invejam o que tens. Vive o que tens! E não te esqueças de escolher melhor quem te rodeia e os falsos profetas da tua – ‘graça’. Os que te cobrem de elogios no teu canal só te prejudicam, porque as pessoas não são parvas e percebem que só fazem isso para manterem as suas posições. E o deslumbramento de alguns (honra às exceções!) é tão ridículo e patético que, no permanente ensaio da sua cegueira, ainda não perceberam o que vai acontecer…

10.De duas coisas tenho a certeza: (1) em breve, as pessoas de uma forma geral vão perceber que já não precisas da Federação e da Seleção para fazeres coisas que vão ‘abalar’ o Mundo (para além da consagração no momento em que alcançares o golo 1000); (2) a Seleção está muito bem entregue, desportivamente, a Jorge Jesus e, na verdade, CR7 sabe disso. Por isso, com admiração por ambos, lamento tanto que este processo esteja no ponto em que está. Voltarei ao assunto, brevemente.

EXAME

JORGE JESUS
16
O selecionador-treinador que a Seleção precisa

TIAGO CRAVEIRO
15
O ‘homem-invisível’ que melhor percebe a dimensão de CR7

SIMÃO COUTINHO
13,5
Fez o que pôde para aproximar as partes

FPF
5
É preciso perceber que muita gente (bem paga!) não faz nada de relevante!

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