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Filipe Azevedo, antigo avançado português, é intermediário com forte vínculo e reputação na Ásia, onde intervém no desenvolvimento de academias. Recordou a O JOGO como foi trabalhar com Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira
Filipe Azevedo encerrou a carreira em Espanha, após ter jogado com os campeões europeus do Marselha, ter brilhado com Jesus no Felgueiras e ter sido contratado por Luís Filipe Vieira. Hoje inspira o desenvolvimento de academias na China.
Como podemos conhecer toda a história e contexto do Filipe Azevedo na China, vendo o papel em clubes e federações?
-Após ter terminado a minha carreira de futebolista, eu recebi um convite para ser diretor técnico na Associação de Futebol de Meizhou [pertence à Federação de Futebol da China] e aceitei. Isto porque eu sempre tive o objetivo de desempenhar funções dentro do futebol, após encerrar a carreira. Uma das minhas principais funções foi criar um projeto de desenvolvimento desportivo para jovens praticantes numa cidade com cinco milhões de habitantes. Foi algo extremamente gratificante, mais não seja por constatar que este projeto ainda vigora. Claro que por inerência de funções, eu tive de percorrer muitas escolas e academias, mas sempre com muita satisfação e sem desgaste.
Como se contam progressos e políticas em prol do futebol, sabendo-se que não é aquele campeonato de grandes craques que já foi?
-No passado, não muito distante, o futebol na China foi extremamente valorizado e reconhecido. Inclusive, o Jaime Pacheco teve um percurso notável no Beijing e o Vítor Pereira foi campeão nacional. Atualmente, e após um período de menor investimento e mediatismo, o futebol chinês já começou a recrutar treinadores portugueses, casos do Daniel Ramos e do Ricardo Soares. O que permitirá desenvolver melhor e, sustentadamente, o futebol neste imenso país, a população chinesa bem merece.
Como o seu trajeto próspero de experiências fora do país desembocou na China sem lá ter jogado?
-Felizmente, eu tive a possibilidade de jogar em vários países, tais como França, Rússia, Índia, Chipre, o que me permitiu conhecer muitos agentes desportivos, colegas, treinadores e empresários. Mas nunca joguei na China. No entanto, foi fruto da minha carreira e das pessoas com quem me cruzei ao longo do tempo que me possibilitou conhecer, trabalhar e, ainda, permanecer na China.
Como avalia a realização e reputação do seu trabalho na China, a dose de apreço que recebe?
-Desde a minha ida para a China que, claramente, sinto uma enorme afinidade pela sua população e cultura. Aliás, neste momento, sou o CEO da empresa CF Sports Consulting, que tem como principal objetivo fornecer consultoria a diferentes entidades desportivas chinesas, e de outras proveniências, promovendo os agentes portugueses. Claramente, o treinador e o jogador português apresentam características ímpares, distinguindo-os dos demais, não só pelo seu conhecimento do jogo e da metodologia do treino, mas também pela sua enorme capacidade de adaptação a novas culturas.
Vendo alguns exemplos de treinadores e jogadores portugueses na China nos últimos anos, qual a satisfação que sente existir com o seu trabalho?
-Como faço questão de referir, todos os treinadores portugueses, com maior ou menor êxito desportivo, foram sempre muito acarinhados e reconhecidos pelos dirigentes e adeptos chineses.
Jogar na Rússia, Índia ou Espanha que marcas deixou?
-Procurei sempre o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Aprendi muito em todos os países por onde passei, vivendo cada contexto. Quando estava na Índia vi, claramente, a diferenciação social dos mais ricos para os pobres. Isso definiu o que sou hoje, profundamente altruísta.
Foram três anos com Jorge Jesus, entre 1995 e 1998, que ajudaram Filipe Azevedo a ter uma ideia muito concreta e um apreço apurado pelo atual selecionador nacional, quando este firmava o segundo grande capítulo da carreira, após o Amora. As influências nunca se dissiparam.
"Todos os treinadores foram importantes no meu desenvolvimento. Mas o míster Jorge Jesus foi ímpar pelo seu conhecimento de jogo e características humanas. Quem foi treinado por ele, sabe. Orientou-me há muito tempo e, por exemplo, no ano passado, eu estive em Riade em serviço da minha empresa e ele arranjou um tempo para pormos a conversa em dia", lembra Filipe Azevedo, espremendo a essência de um comando com carga emocionante para todos os envolvidos.
"O Jorge é muito explosivo, mete toda a emoção no treino e no jogo. Anda constantemente em cima de ti. Sempre me dizia que eu ia fazer muitos golos com ele e definia, de facto, muito trabalho específico com os avançados. E basta ver o histórico dos avançados que treina até hoje. Tínhamos grande respeito por ele, consideração maior e sentíamos que tudo ia dar certo. Era fácil perceber como ele entendia tudo o que fazia. Se um técnico não passa essa confiança ao jogador, perde-se tudo. Ele era fortíssimo a contagiar-nos, todos acreditavam no que faziam", expressa.
Filipe Azevedo guarda as memórias de Jesus, mas também tem para contar muitos episódios de Alverca, o clube que o contratou e que o fez voltar a jogar na liga, depois da estreia com os durienses e JJ em 95/96. "Partilhei balneário com grandes jogadores, mas tenho de destacar o presidente Luís Filipe Vieira pela sua enorme capacidade de gestão, humana e de proximidade. Mostrou sempre muita sensibilidade, foi incrível! Comprou casas a jogadores, era o fiador! Não nos faltava nada. Ele tratou o Mantorras como um filho", descreve Filipe Azevedo, pontuando um momento singular do antigo líder do Benfica. "No meu primeiro ano faço uma pré-época com inflamação na tíbia. O departamento médico entrega um relatório à equipa técnica que eu não poderia jogar a alto nível devido a um problema num pé. Fiquei sem chão! Já me tinha passado isso no Marselha. Pedi autorização para ir a França recuperar do problema, estive lá algum tempo, fui a um podologista que me encontrou palmilhas adequadas", recua o antigo avançado, concretizando o surpreendente desenlace. "Voltei a Portugal, fiz mais algum tratamento e joguei passado mês e meio. Fiz bons jogos e marquei oito golos. O meu representante expôs a situação desagradável e o presidente mandou todo o posto médico embora. É uma atitude que conta", realça, citando colegas vistosos desse tempo. "Lembro-me do Nuno Assis, Mantorras, Maniche, Kulkov, Paulo Santos ou Ovchinnikov, que foi decisivo para que fosse jogar no Lokomotiv, porque conhecia bem o Semin".
A carreira sénior de Filipe Azevedo começa por ligá-lo a Marselha, subindo ao plantel principal na época seguinte à conquista da Taça dos Campeões Europeus de 92/93. Joga com Rui Barros e Futre, com Barthez, Angloma, Desaily, Boli, Deschamps, Stojkovic, Boksic ou Voller. "A minha passagem vem da academia, onde me desenvolvi como jogador e atingi a primeira equipa. Fui internacional sub-18 e sub-20 pela França. Devo muito ao Marselha", assegura, lembrando a experiência avassaladora nesse núcleo de craques. "Eram personalidades diferentes, mas toda a gente cultivava os valores do Marselha e atacava os objetivos do clube. Foi enriquecedor e um período muito importante para mim. Aprendi com os melhores", salienta.
"Tive o privilégio de apanhar um grande momento do Marselha, tinham vencido a Champions e eu treinava por vezes com eles. Jogava pelas seleções jovens e consegui participar em jogos na época seguinte. Defrontei o Auxerre ao lado do Rui Barros, porque não chegara a tempo o certificado internacional do Sonny Anderson. Entrei para o lugar do Dragan Stojkovic", rebobina o atacante, munido de outro pormenor. "O Rui veio nessa semana de um jogo de Portugal contra a Itália e estava com queixas musculares. Não estava bem, mas mandava o Tapie e ordenou que ele jogasse. Ele alinhou os 90 minutos e até foi dos melhores", observa.