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Era suposto ser a noite de Lionel Messi. Em Buenos Aires, a Argentina preparou uma despedida à medida de um dos maiores jogadores da história. Lionel Messi disputa esta terça-feira o último jogo pela seleção argentina, diante do Benim, no Monumental, encerrando uma carreira internacional de 21 anos. A partida foi transformada numa grande homenagem ao capitão argentino, com o estádio lotado e antigos companheiros da conquista do Mundial de 2022 presentes para o adeus.
Messi chega ao último capítulo da sua história com a Argentina como campeão mundial e recordista de golos e internacionalizações. Antes do jogo, deixou uma mensagem de despedida em que garantiu partir “em paz”, depois de ter dado tudo pela camisola que, segundo o próprio, foi “o seu sonho, orgulho e vida”.
Tudo apontava, portanto, para uma noite exclusivamente de Messi. Até Cristiano Ronaldo decidir falar.
Enquanto Buenos Aires se preparava para celebrar Messi, Cristiano Ronaldo divulgava em Portugal um extenso comunicado no qual decidiu contar, na primeira pessoa, tudo o que, segundo a sua versão, aconteceu no polémico estágio da Seleção Nacional.
O português não se limitou a justificar a saída da comitiva. Ronaldo revelou conversas privadas com Jorge Jesus, descreveu uma alegada quebra de confiança, explicou o episódio em que aqueceu sem entrar diante da Noruega e assumiu inclusivamente que deve ser punido pela Federação Portuguesa de Futebol.
“Era a segunda vez que me estava a faltar à palavra”, escreveu o capitão português. E rematou com uma frase que rapidamente passou a dominar as manchetes: “Peguei nas malas e saí.”
O timing não podia ser mais simbólico.
Há uma ironia particularmente forte na coincidência. Messi despede-se da seleção argentina. Ronaldo, pelo contrário, recusa que o momento seja encarado como uma despedida.
No próprio comunicado, o português rejeita a ideia de que esteja a preparar um adeus à Seleção Nacional e deixa claro que continua a pensar em competição.
“Quando penso na seleção o que eu penso mesmo é em competir”, escreveu.
Mais do que isso, Ronaldo garante que, depois de cumprir a eventual suspensão e caso esteja fisicamente apto e a jogar pelo clube, continuará disponível para representar Portugal.
“Estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção.”
É quase o contraste perfeito entre os dois momentos: Messi fecha uma porta. Ronaldo insiste que ainda não chegou a hora de fechar a sua.
Durante mais de uma década, Messi e Ronaldo foram o centro de uma das maiores rivalidades individuais que o futebol conheceu.
Barcelona contra Real Madrid. La Liga contra Premier League. Argentina contra Portugal. Esquerda contra direita. Bola de Ouro contra Bola de Ouro.
A comparação acompanhou-os durante anos, mesmo quando os dois raramente alimentavam diretamente a rivalidade.
Agora, quando Messi chega ao último jogo pela Argentina, Ronaldo volta a ocupar o centro do debate mundial sobre futebol.
A imprensa internacional percebeu imediatamente a coincidência. O The National, por exemplo, colocou lado a lado a despedida de Messi e a polémica de Ronaldo com Portugal, descrevendo precisamente o contraste entre um dos craques a dizer adeus à seleção e o outro envolvido numa disputa com o selecionador.
Não significa que Ronaldo tenha escolhido este dia para competir com Messi pela atenção. Não há qualquer elemento que permita estabelecer essa relação causal. Mas no calendário do futebol, o efeito é impossível de ignorar.
Em Buenos Aires, milhares de adeptos juntam-se para dizer adeus ao homem que finalmente conquistou o Mundial e transformou a relação com a seleção argentina.
Em Portugal, o jogador que tantas vezes foi comparado com Messi decidiu abrir uma nova frente e contar a sua versão de uma polémica que parecia longe de estar encerrada.
Messi despede-se com uma celebração. Ronaldo responde com um comunicado de "guerra", ainda que também assuma erros e peça desculpa aos companheiros e aos adeptos.