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O futebol tem destas particularidades: há jogadores que passam anos a defender um emblema e acabam por reencontrá-lo do lado contrário. No dérbi feminino deste sábado, entre Benfica e Sporting, há duas histórias que ajudam a ilustrar essa realidade.
Ana Borges e Beatriz Cameirão conhecem bem os dois lados da rivalidade lisboeta e podem voltar a cruzar-se com o passado, agora com camisolas diferentes das que marcaram parte importante das respetivas carreiras.
O caso de Ana Borges tem contornos particularmente especiais. Depois de nove temporadas ao serviço do Sporting, a internacional portuguesa mudou-se para o Benfica no verão de 2025, numa transferência que colocou fim a uma longa ligação ao emblema de Alvalade.
A antiga capitã leonina, que tinha chegado ao clube em 2016, participou na conquista de dois campeonatos nacionais, três Taças de Portugal e três Supertaças, assumindo-se como uma das figuras mais reconhecidas do futebol feminino sportinguista.
A mudança, contudo, não teve o início esperado. Pouco depois de ser anunciada como reforço das águias, Ana Borges sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, que obrigou a uma intervenção cirúrgica e a um longo processo de recuperação.
A internacional portuguesa ficou afastada da competição durante cerca de 14 meses e viu adiada a estreia oficial com a camisola encarnada.
O regresso aconteceu apenas no último domingo, na vitória do Benfica sobre o Marítimo, por 0-4. Ana Borges entrou na segunda parte e disputou cerca de 15 minutos, colocando um ponto final num período prolongado de ausência.
A emoção foi evidente nas palavras que partilhou após o encontro, classificando o regresso como o dia mais feliz da sua vida. Agora, poucos dias depois, surge a possibilidade de voltar a defrontar o clube que representou durante quase uma década.
Se Ana Borges trocou Alvalade pela Luz, Beatriz Cameirão percorreu o caminho inverso. A média portuguesa terminou a ligação ao Benfica no final de agosto deste ano, depois de uma passagem marcada por várias conquistas, e foi apresentada como reforço do Sporting a 2 de setembro.
Aos 25 anos, assinou um contrato válido até 2029 e iniciou uma nova etapa precisamente num dos principais rivais das águias.
A ligação de Cameirão ao Benfica começou ainda na formação e prolongou-se pela equipa principal, apesar de um período de duas temporadas ao serviço do Damaiense, entre 2022 e 2024. No total, a média somou 139 encontros pelo conjunto sénior encarnado e esteve associada à conquista de nove troféus na I Divisão: quatro campeonatos nacionais, três Taças da Liga, duas Taças de Portugal.
A saída foi oficializada por mútuo acordo, numa altura em que a jogadora procurava um novo desafio na carreira. Dias depois, o Sporting anunciou a contratação e a internacional jovem portuguesa destacou a confiança demonstrada pela nova equipa técnica como um dos motivos para aceitar o projeto.
A mudança colocou-a imediatamente perante a possibilidade de reencontrar antigas companheiras e um clube onde passou vários anos da carreira.
O dérbi deste sábado oferece, assim, um cenário particular para Cameirão. A média pode regressar ao Estádio da Luz como adversária, depois de ter celebrado títulos e participado em encontros de grande importância com a camisola do Benfica.
Num plantel leonino que sofreu alterações durante o mercado de verão, a portuguesa representa também uma das soluções acrescentadas por Micael Sequeira para o meio-campo.
As duas histórias têm, contudo, diferenças significativas. Ana Borges chega ao encontro numa fase de readaptação competitiva, depois de uma lesão que condicionou praticamente toda a sua primeira temporada no Benfica.
Já Beatriz Cameirão procura afirmar-se numa nova equipa, após uma transferência concretizada há menos de dois meses. Ambas conhecem bem o ambiente dos dérbis, mas vivem momentos distintos nas respetivas carreiras.
2: , Liga Portuguesa Feminina: 2016/17, 2017/18
2: 3, Liga Portuguesa Feminina: Taça de Portugal Feminina
2: , Liga Portuguesa Feminina: 2016/17, 2017/18, 2021/22
2: 3, Liga Portuguesa Feminina: Supertaça Feminina
2: , Liga Portuguesa Feminina: 2017, 2021, 2024
2: 1, Liga Portuguesa Feminina: Women´s Super League
2: , Liga Portuguesa Feminina: 2015
2: 1, Liga Portuguesa Feminina: Taça de Inglaterra Feminina
2: , Liga Portuguesa Feminina: 2014/15
No caso da antiga capitã do Sporting, a participação no encontro continua dependente da gestão física efetuada pela equipa técnica. Ivan Baptista confirmou, na antevisão, que a jogadora tem treinado sem limitações, embora o aumento dos minutos de utilização deva acontecer de forma gradual.
Os cerca de 15 minutos disputados na Madeira corresponderam ao limite estabelecido para o primeiro momento competitivo, pelo que a presença frente às antigas companheiras não representa uma garantia de utilização.
O regresso de Ana Borges foi também acompanhado de perto por Andreia Norton, que enfrentou igualmente uma lesão grave e regressou à competição na Supertaça disputada em setembro. As duas partilharam parte do processo de recuperação, numa experiência que a centrocampista encarnada recordou esta semana com emoção.
Para Norton, o regresso da companheira ultrapassa a dimensão do próprio clube, tendo em conta o percurso e o contributo da internacional portuguesa para o futebol feminino nacional.
Entre o regresso à competição de Ana Borges e o reencontro de Beatriz Cameirão com a antiga casa, o dérbi da Luz guarda histórias que vão além dos três pontos. Para uma, poderá representar o primeiro confronto com o Sporting desde a saída de Alvalade; para a outra, a oportunidade de regressar ao estádio onde viveu alguns dos momentos mais importantes da carreira.
Duas trajetórias cruzadas por uma rivalidade que, durante 90 minutos, voltará a colocá-las em lados opostos.