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Parken Stadium ficou marcado pela polémica saída de Cristiano Ronaldo da Seleção e acontecimento mereceu uma espécie de batismo
Visto de fora, o Parken Stadium não parece bem um estádio, nem mesmo em dia de jogo, não há uma imponência capaz de anunciar as histórias que guarda, nem uma fachada capaz de denunciar a dimensão das emoções que ali já se viveram. Integrado numa paisagem urbana de Copenhaga, entre edifícios e ruas que seguem o seu ritmo quotidiano, passa quase despercebido a quem não sabe o que procura. E a quem sabe também. É preciso chegar bem perto para se perceber que, por trás de tal dimensão discreta, existe um lugar onde já se partilharam alegrias, medos, surpresas. E silêncios. Alguns deles bem ruidosos e que lembraram que o futebol pode deixar de ser apenas futebol num ápice.
Há estádios que ficam marcados por golos ou noites europeias inesquecíveis, para o bem e o mal. Outros, como o Parken, que marcam pela capacidade de colocar o mundo em suspenso: em 2021, pelo instante em que milhares de vozes se calaram diante do corpo de Eriksen caído na relva, após uma paragem cardiorrespiratória. E, mais recentemente pela carrinha que deixou para trás o estádio com Cristiano Ronaldo e uma história que Portugal e o Mundo ainda procuravam compreender. Assim é o futebol: transforma lugares em memória e faz com que o relvado deixe de ser apenas um relvado.
Cinco anos depois, a casa do Copenhaga volta a ser notícia. Desta vez, pela força de um gesto do capitão da Seleção Nacional, que decidiu abandonar o estágio em dia de jogo após um desentendimento com Jorge Jesus. O caso, bem como o portão pelo qual Ronaldo saiu, já foi batizado de "Ronaldo Gate", em alusão ao grande escândalo político nos Estados Unidos que envolveu a administração do presidente Richard Nixon, em 1972, culminando na sua demissão, a primeira da história de um presidente norte-americano. "Sentimos que, por várias horas, todos os olhares do Mundo estiveram em Copenhaga", recorda a O JOGO o jornalista Daniel Fallah, do jornal desportivo Bold.
Daniel estava a trabalhar quando estalou a polémica. "Antes das conferências, estava tudo normal. O Ronaldo chegou com a equipa, jamais acharia que ia acontecer o que aconteceu. Estava na redação quando me ligaram a dizer que ele tinha ido embora. Claro que devemos sempre descrever os factos sem fazer muitas suposições, mas desconfiei logo que a atitude dele estava relacionada com as palavras de Jorge Jesus", acrescenta.
A situação escalou rapidamente e só muito mais tarde, quando viu Ronaldo a entrar para o avião, depois de correr em direção ao aeroporto, é que Daniel deu conta de que o que estava a viver era real. "Foi uma notícia enorme, tanto cá como no Mundo. Ele é uma das pessoas mais famosas do Mundo e um dos maiores futebolistas de todos os tempos. Foi um dia e noite de trabalho incríveis. A primeira coisa que pensei foi num conflito de uma das maiores figuras do futebol de todos os tempos. Um fenómeno mundial que está infeliz. E é muito estranho assistir a isso presencialmente. Também pensei que podia ser o fim de Ronaldo na Seleção, o que me deixou muito triste e com um sentimento estranho. Jamais esquecerei".
Daniel acompanha o futebol há muitos anos e nunca pensou presenciar tamanho acontecimento. Mas tem a noção de que a personalidade vincada de Ronaldo ajudou ao surgimento do episódio polémico. "Fiquei muito surpreendido. Acompanhei o Ronaldo de perto, tanto a nível profissional como privado, ele é diferenciado. Não é do tipo de pessoa de ficar calado e, sendo ele uma estrela tão grande, traz consequências. Ainda por cima, muitas pessoas compraram bilhete de propósito para o ver jogar, já que podia ser a última oportunidade. Ficaram muito dececionadas, claro", recorda.
Hoje, os ânimos estão mais serenos, ainda que paire a dúvida no regresso do capitão. Mas, uma coisa é certa: Parken não voltou a ser o mesmo. As bancadas continuam no mesmo lugar, a bola continua a rolar. Mas há acontecimentos que ficam agarrados à memória dos locais, como se o betão também tivesse aprendido a recordar. Em Copenhaga, o futebol já conheceu o medo de perder. E conheceu a partida de um capitão. No Parken, há silêncios que não terminam quando o árbitro apita.