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FOLHA SECA - Um artigo de opinião de Carlos Tê
Sevilha deu razão ao ditado que aconselha a não voltar a um lugar onde se foi feliz. Neste caso, não havia outro remédio, o calendário assim o impôs. Ditados à parte, o jogo franziu os sobrolhos portistas porque o Bétis não é o City, embora seja uma equipa espanhola. Claro que este Porto não é o Porto europeu de outras eras e há um processo de retoma em curso, um PRC. Mesmo assim, esperava-se uma demonstração mais consistente de ADN, de mística, ou do que lhe quiserem chamar, porque foi alarmante ver uma equipa encostada às cordas na primeira parte, atrapalhando-se com a bola mal a ganhava e perdendo-a como quem perde moedas num parquímetro avariado. No mínimo, havia que dar um murro no parquímetro, tocar a reunir, e isso só aconteceu como reacção ao golo sofrido.
Aprecio o esforço de Farioli na reabilitação de Moura e a sua defesa depois de mais uma prestação infeliz, mas cabia-lhe calcular que lançá-lo em jogo tão abrasivo podia ser um desafio à sorte e um convite ao esgaçar da manta pelo seu lado. Ainda por cima, a manta esgaçou num momento de euforia, na viragem do resultado, com a incúria inexplicável nas dobras e nas compensações, sem apoio a Moura, que tende a desligar a ficha com a meta à vista, como fez contra Sporting e Benfica na época passada. Os adeptos até lhe chamam, com carinho, o "enterra".
Também não correu bem a Farioli abrir mão do seu melhor número seis para substituir Bednarek. Percebe-se que o tenha feito por não dispor de um central na equipa B que responda a uma emergência, mas recuar Rosario e lançar Varela significou abandonar Froholdt às feras béticas, já que Veiga também se ausentou para parte incerta, apesar do golo marcado - e não é aceitável que Veiga ateie um incêndio nos festejos, que só não alastrou devido à acção de André Silva. Voltando a Varela: parece um exemplo de involução, começou a perder qualidades a partir de um certo ponto do crescimento. Há quem lhe chame Princípio de Peter, mas neste caso não há Peter que possa ser invocado, porque o argentino nunca se estabeleceu num patamar de fiabilidade que prenunciasse um número seis de equipa de topo. Varela é só mais uma promessa interrompida e o risco de lhe entregar a delicada missão de compensar, recuperar e dar seguimento à bola com critério, foi maior do que lançar Moura.
No fim, Farioli disse que o Porto merecia mais. Talvez, mas a verdade é que colheu o fruto amargo da ingenuidade e do destrambelhamento emocional ao ser incapaz de capitalizar a seu favor uma reviravolta e segurá-la. Ficou a sensação de um antigo campeão europeu apanhado de surpresa na curva alucinante da Champions League. Perder é sempre um problema, mas perder por falta de cabeça é mais duro de engolir. Não há falta de entrega a apontar, há, isso sim, a falta de inteligência que dá sentido e ordem a tanta correria e tanto suor. A inteligência consiste em pôr onze jogadores a pensar como um corpo que liberta as suas individualidades e depois puxa-as de volta à sua carapaça para se resguardar. Esperteza, precisa-se.