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No mesmo dia em que Messi foi elevado ao Olimpo pelos argentinos, Cristiano Ronaldo escreveu uma longa defesa da sua saída da seleção portuguesa. Um despediu-se rodeado de gratidão. O outro explicou-se rodeado de conflito. E, mesmo sem anunciar o fim, Ronaldo pode ter escrito o primeiro capítulo do seu adeus.
Há coincidências que parecem escritas por um argumentista. Na terça-feira, 6 de outubro, Lionel Messi despediu-se da seleção argentina perante mais de 85 mil pessoas no Monumental, em Buenos Aires. No mesmo dia, Cristiano Ronaldo decidiu contar, em várias páginas, a sua versão da polémica com Jorge Jesus e da saída do estágio da seleção portuguesa.
Do outro lado do Atlântico, Messi chorava durante o hino, entrava em campo acompanhado pelos filhos, marcava o último golo pela Argentina e recebia uma ovação no minuto 10. Em Portugal, Ronaldo publicava um longo comunicado para explicar por que razão abandonou o estágio, pedir desculpa aos adeptos e aos companheiros, responsabilizar-se pelo sucedido e, simultaneamente, denunciar aquilo que considera ter sido uma “absoluta quebra de confiança” por parte de Jorge Jesus.
É difícil imaginar duas despedidas mais diferentes. Messi saiu pela porta grande. Ronaldo deixou a porta entreaberta
Messi não precisou de explicar por que razão estava a sair. O tempo tinha tratado dessa questão. A seleção argentina preparou-lhe uma noite de consagração com estádio cheio, música, homenagens, imagens no céu, fogo de artifício e uma última exibição em que o capitão marcou e assistiu. O futebol argentino não discutiu naquela noite quem tinha razão, quem falhou ou quem disse o quê.
Houve apenas gratidão.
A própria Argentina construiu a despedida como uma espécie de coroação. Messi saiu com 208 internacionalizações, 126 golos e os títulos que mudaram para sempre a relação entre ele e o país: duas Copas América e o Campeonato do Mundo. Aquele que durante anos foi questionado passou a ser despedido como aquilo que os argentinos já não discutem que é: uma figura maior da história da seleção.
Ronaldo fez precisamente o contrário.
Não anunciou a retirada. Pelo contrário, escreveu que continua disponível. “Se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção”, afirmou.
Formalmente, portanto, não há despedida. Mas há qualquer coisa de despedida naquele texto.
Ronaldo decidiu contar a sua versão “na primeira pessoa e de forma direta”. Explicou conversas privadas com Jorge Jesus, descreveu o plano de utilização que, segundo a sua versão, tinha sido combinado, falou da passagem pelo jogo com a Noruega, do aquecimento sem entrada em campo e da posterior conferência de imprensa.
Mais do que isso, tornou público um conflito que até então podia ter sido resolvido dentro da seleção.
É aqui que começa o problema.
Um capitão pode ter razão. Um selecionador pode ter razão. Ambos podem ter versões diferentes dos acontecimentos. Mas quando a relação chega ao ponto em que um jogador sente necessidade de escrever um documento de várias páginas para demonstrar que não pediu para jogar, que uma promessa foi quebrada e que houve uma “quebra de confiança”, alguma coisa fundamental já se partiu.
Ronaldo assume, aliás, que sair do estágio foi errado.
“Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio”, escreveu. E acrescentou: “A responsabilidade é exclusivamente minha.” Reconhece ainda que, pelo seu estatuto, não deve ter tratamento diferente: “Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante.”
É uma admissão importante. Mas não resolve o problema principal: Ronaldo e Jorge Jesus parecem ter chegado a um ponto em que a confiança necessária para trabalharem juntos deixou de existir.
E há uma frase que diz mais do que parece: “Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí.”
Esta frase merece ser lida com atenção.
Porque Ronaldo não está apenas a dizer que ficou zangado por não jogar. Está a dizer que concluiu que a sua presença poderia prejudicar o grupo. É uma interpretação pessoal, naturalmente, mas é também uma frase que pertence ao léxico de quem pondera o próprio fim.
E há outra ainda mais reveladora.
Ronaldo garante que haverá “um ou mais jogos de despedida” e que “haverá tempo para isso”. Ou seja, o próprio jogador admite que a despedida da seleção está no horizonte, ainda que não esteja disposto a dizer que chegou agora.
É aqui que a comparação com Messi se torna inevitável. Messi teve uma festa. Ronaldo teve uma crise
Messi despediu-se quando a história estava terminada. Ronaldo pode estar a despedir-se quando a história ainda está em conflito.
Essa diferença muda tudo.
Messi teve tempo para transformar a última internacionalização numa celebração. A Argentina sabia que era o fim, o jogador sabia que era o fim, os companheiros sabiam que era o fim e os adeptos sabiam que era o fim. Não havia necessidade de explicar uma discussão com o treinador ou de provar quem tinha razão.
Havia apenas espaço para agradecer. E foi isso que aconteceu.
No Monumental, o número 10 chorou, foi aplaudido, marcou de penálti e terminou a noite rodeado pelos companheiros. Depois, o céu de Buenos Aires transformou-se num palco, com drones e efeitos de luz a desenharem imagens relacionadas com a carreira do jogador. O adeus foi preparado como uma celebração nacional.
Ronaldo, pelo contrário, publicou uma espécie de ata da ruptura.
E há uma ironia quase cruel nisto: no mesmo dia em que Messi era transformado numa memória gloriosa da Argentina, Ronaldo estava a tentar controlar a narrativa sobre aquilo que poderá vir a ser a memória da sua saída de Portugal.
É tentador reduzir tudo a uma guerra entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Mas o problema é maior.
Ronaldo escreveu que Jorge Jesus era, inicialmente, “a opção certa”. Recordou que apoiou a escolha do selecionador e que ficou genuinamente feliz quando este foi apresentado. Disse até que o treinador lhe apresentou um plano para a sua participação na seleção.
Depois, tudo se deteriorou.
Jesus, por seu lado, não reconheceu publicamente a versão apresentada por Ronaldo. Confrontado com o comunicado, limitou-se a dizer que ainda não tinha lido o texto e que não tinha nada a comentar naquele momento.
Agora existe uma questão que vai muito além de saber quem disse a verdade numa determinada conversa privada: como é que estes dois homens podem voltar a trabalhar juntos depois de tudo isto?
É possível? Sim. É provável? Isso já é outra questão.
Porque Ronaldo pode aceitar uma suspensão. Pode pedir desculpa. Pode afirmar que está disponível. Mas Jorge Jesus também tem de conseguir voltar a olhar para o capitão e acreditar que a relação profissional pode funcionar.
E, sobretudo, a Federação Portuguesa de Futebol terá de decidir se entende que essa relação ainda serve a seleção.
Neste momento, esta é provavelmente a pergunta mais incómoda: Ronaldo não anunciou o fim, mas quem o voltará a convocar?
Cristiano Ronaldo não anunciou a retirada. Pelo contrário, deixou expressamente a porta aberta. Afirmou que quer continuar a competir e ganhar por Portugal.
Mas uma coisa é o jogador querer regressar. Outra é ser convocado.
Depois de tudo o que foi escrito, depois das acusações de quebra de confiança, depois da saída do estágio e depois de uma exposição pública tão detalhada do conflito, a relação entre jogador e selecionador ficou profundamente fragilizada.
E, se Jorge Jesus continuar no cargo, será difícil imaginar que o assunto possa simplesmente ser apagado.
Não porque Ronaldo não tenha qualidade para representar Portugal. Nem porque a sua carreira não mereça respeito. Mas porque uma seleção nacional precisa de uma hierarquia clara e de uma relação funcional entre selecionador e jogadores.
Ronaldo escreveu, aliás, que aceita a punição da Federação e que “as regras são iguais para todos”. Essa frase pode ser lida como uma tentativa de fechar o episódio disciplinar. O problema é que o conflito com Jesus é de outra natureza.
Há aqui outra contradição interessante. Ronaldo diz que ainda quer competir. Mas diz também que haverá um ou mais jogos de despedida.
Ou seja, parece estar a tentar separar duas coisas: o adeus simbólico, que considera inevitável, e o fim competitivo, que ainda não aceita.
É compreensível.
Messi conseguiu separar as duas dimensões numa única noite. Despediu-se da Argentina e, ao mesmo tempo, continuou a ser jogador de futebol. Ronaldo quer provavelmente fazer o mesmo, mas a forma como este processo está a decorrer pode impedir que tenha esse privilégio.
Porque as despedidas bonitas exigem uma coisa que não se compra com 143 golos, cinco Mundiais ou uma carreira extraordinária: tempo e consenso.
E Ronaldo pode já não ter nenhum dos dois.
É injusto comparar as carreiras de Messi e Ronaldo como se fossem uma competição que tivesse de acabar com um vencedor. Foram dois jogadores extraordinários que marcaram uma geração e que, durante quase duas décadas, empurraram o futebol para níveis que pareciam impossíveis.
Mas é perfeitamente legítimo comparar a forma como se relacionaram com as respetivas seleções no momento da saída.
Messi chegou ao fim como um símbolo nacional.
Ronaldo pode estar a chegar ao fim como uma figura ainda indispensável no imaginário português, mas envolvida numa disputa com o homem que tem autoridade para decidir o seu lugar na equipa.
Messi teve o Monumental.
Ronaldo poderá ter um comunicado.
Messi teve 85 mil pessoas a dizer “obrigado”.
Ronaldo teve de escrever que também haverá tempo para um jogo de despedida.
Messi chorou porque sabia que estava a dizer adeus.
Ronaldo escreveu que ainda quer voltar, mas deixou no papel as razões pelas quais esse regresso pode ser muito difícil.
E talvez seja esta a parte mais triste de todas.
Cristiano Ronaldo merece uma despedida à altura daquilo que fez por Portugal. Merece sair com aplausos, com reconhecimento e com a camisola da seleção. Merece, como Messi, poder olhar para trás e saber que o país reconhece aquilo que lhe deu.
Mas uma despedida não se decreta. Constrói-se.
E, neste momento, Ronaldo parece estar a construir a sua saída não com uma festa, mas com uma batalha sobre quem tinha razão.
Se esta foi, de facto, a última vez que Cristiano Ronaldo esteve num estágio da seleção portuguesa, será difícil não pensar que um dos maiores jogadores da história do futebol português e mundial merecia outro último capítulo.
Não porque tivesse necessariamente de ter razão.
Mas porque, depois de tudo o que deu à seleção, merecia poder dizer adeus como Messi disse à Argentina: sem precisar de se explicar.