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A Juventus parece continuar a viver uma autêntica montanha-russa no século XXI. Depois da glória no início dos anos 2000 e do subsequente tombo à Serie B, em 2006, resultante do escândalo de corrupção conhecido como Calciocaos, o emblema de Turim regressou ao principal escalão por mérito desportivo e, entre 2011 e 2020, foi verdadeiramente imparável a nível interno, conquistando nada menos do que nove (!) ligas consecutivas.
Pelo meio, mais especificamente em 2018, teve poder para atrair para as suas fileiras o então Bola de Ouro: falamos, pois claro, de Cristiano Ronaldo. Após uma verdadeira era dourada ao serviço do Real Madrid, o astro português mudou de ares e experimentou Turim, confessando, na altura, que sempre tinha nutrido um carinho especial pela Juve.
A contratação de CR7 implicou, naturalmente, um tremendo esforço financeiro por parte dos bianconeri, que pagaram 117 milhões de euros ao Real Madrid pelo capitão da Seleção Nacional. Mas o potencial retorno não oferecia margem para dúvidas: a longo prazo, o investimento seria compensado. Em termos desportivos, pouco ou nada a apontar. Com Ronaldo no plantel, a vecchia signora continuou a mandar na Serie A e Cristiano somou, em três épocas, 101 golos e 19 assistências em 134 partidas oficiais. Em termos coletivos, a última temporada do avançado em Turim foi menos proveitosa, pois o Inter conseguiu quebrar a hegemonia e a Juventus terminou o campeonato no 4.º lugar.
A partir daí, tudo parece ter descarrilado. Desde o início de 2021/22, a Juve levantou apenas um troféu — a Taça de Itália, em 2023/24 — e, na liga transalpina, não ficou acima do terceiro lugar. Em termos europeus, nada de extraordinário, atendendo aos pergaminhos do clube. Entre Champions e Europa League, o melhor foi a presença nas meias-finais da segunda prova mais importante do Velho Continente, em 2022/23, era Massimiliano Allegri o treinador.
A construção dos plantéis também tem deixado a desejar, pelo menos aos olhos dos sempre exigentes adeptos, mas também há justificação. É que além desta espécie de travessia no deserto dentro das quatro linhas, o saldo bancário não é nada famoso.
Há poucas semanas, no final de setembro, a Juventus apresentou um resultado financeiro negativo de cerca de 66 milhões de euros. Foi o nono ano consecutivo em que o clube registou prejuízo nas contas anuais, ainda que, em relação ao período homólogo anterior, os custos operacionais tenham decrescido 42 milhões de euros. Para tentar inverter esta conjuntura, o conselho de administração bianconero aprovou recentemente a proposta de um aumento de capital de até 250 milhões de euros, que será submetida aos acionistas em assembleia marcada para 3 de novembro. Uma reunião magna que se adivinha quente.
As justificações para esta quebra nas finanças estendem-se a vários ramos, mas não deixam, também, de tocar em... Cristiano Ronaldo. Quando o astro luso assinou contrato, em 2018, ficou acertado um salário anual de 30 milhões de euros. Uma vez que CR7 rumou ao Manchester United em 2021, a Juve desembolsou €90 milhões (ou perto disso, mas já lá vamos), uma fatia muito significativa das receitas operacionais.
A juntar a isto, como tem sido notícia recentemente, ainda decorre nos tribunais uma ação contra o emblema italiano — já condenado a pagar €9,8 milhões —, em que Ronaldo reclama os ordenados que foram diferidos durante a pandemia de covid-19, que, como é sabido, acarretou tremendo impacto financeiro para os clubes à escala global. A Juventus não foi exceção.
Claro que a contratação de Ronaldo também teve o seu lado positivo: a renegociação de contratos de patrocínio muito mais altos com a Jeep e a Adidas, por exemplo, e a expansão global da marca, à boleia da imagem do agora jogador do Al Nassr. Contudo, as conclusões de vários analistas financeiros convergem: o crescimento da receita comercial da Juve ficou longe de cobrir o investimento que CR7 implicou. A escala do contrato do goleador tirou margem de erro à Juventus e a entrada em cena da pandemia complicou ainda mais a situação.
De volta aos relvados, as coisas não estão a correr de feição à Juventus na Serie A 2026/27. Ao cabo de sete jornadas disputadas, a vecchia signora, que conta com Francisco Conceição no plantel, ocupa o 8.º lugar na tabela classificativa, com três vitórias, dois empates e duas derrotas (11 pontos) — está já a oito pontos do líder Inter.
A pesada derrota averbada no domingo, em casa, frente à Lazio (0-3) fez subir de tom a contestação à equipa e ao treinador, Luciano Spalletti. Do lado dos jogadores, Bremer, que falou no final do jogo, também deixou transparecer frustração.
«Fizemos uma exibição pobre, é claro que não estamos felizes por termos representado a camisola da Juventus desta forma. Temos de analisar os nossos erros e voltar ao caminho certo imediatamente. Não há tempo para mais nada. O treinador dá-nos instruções, mas somos nós que temos de pô-las em prática dentro de campo. Há 11 jogadores que começam os jogos e cinco que saem do banco. Tento ajudar toda a gente, mas cada um tem a sua personalidade. Quando alguns jogadores ouvem assobios, ficam com receio. Temos muitos jogadores novos e jovens, eu sei. Não estou a apontar o dedo aos rapazes, mas cada um tem a sua forma de ser. Quando as coisas não correm bem, alguns respondem com determinação, outros encolhem-se», atirou o internacional brasileiro, após o duelo com os biancocelesti, numa altura em que o avançado alemão Nick Woltemade, cedido pelo Newcastle, está no olho do furacão: soma dois golos em sete partidas, mas as exibições não têm convencido.
O próprio Luciano Spalletti foi perentório após o pesado desaire, que levou a que muitos adeptos abandonassem o estádio muito antes do apito final.
«Sem ritmo, sem ideias, sem vontade de correr ou de trabalhar duro. Quando mostras fraqueza nos duelos ou quando baixas a cabeça no momento em que as coisas correm mal... São coisas de que não gosto», disparou o experiente treinador. «Temos de analisar isto. Ou discutimos a forma como falamos com a equipa, ou a forma como trabalhamos. Algo tem de mudar, isso é claro», acrescentou, ele que, tal como os antecessores Andrea Pirlo, Thiago Motta e Igor Tudor, não tem conseguido encontrar o caminho do sucesso. A Juventus, outrora um dos emblemas mais temidos no panorama europeu, já pouco mostra de bicho-papão.