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O que acontece quando já não somos os melhores?

O que acontece quando o sucesso, os aplausos e o lugar de destaque deixam de estar garantidos?

Na semana passada, todos os holofotes estiveram virados para a saída de Cristiano Ronaldo da Seleção. Algumas pessoas ficaram contentes, outras tristes, outras revoltadas, mas quase todas pareceram surpreendidas.

Independentemente dos pormenores, o que se passou levanta uma questão que vai muito além do futebol: o que acontece quando aquilo que nos sustentou durante anos – o reconhecimento, o sucesso, os aplausos, o lugar de destaque – deixa de estar garantido?

Quando esses ingredientes são o maior alimento do nosso sentido de valor, pode construir-se uma imagem ideal de quem somos e de quem esperam que sejamos. Se essa imagem é posta em causa, pode ser difícil pensar, negociar ou reorganizarmo-nos.

Não sabemos exatamente o que terá acontecido com o CR7. Mas podemos reconhecer algo que, em diferentes momentos da vida, todos podemos experimentar: a dificuldade de deixar para trás aquilo que fomos durante muito tempo, para nós e para os outros. De perceber que não somos só aquilo que fazemos. De deixar de ser CR7 para ser Cristiano Ronaldo.

Existe um perigo quando deixamos de ser a Beatriz para sermos a melhor aluna da turma. O Francisco para sermos o craque da bola. O Joaquim para sermos o mais rápido da escola. Ensinamos mais as crianças a superarem-se do que a saber perder, a aceitar um limite, um erro, a mudar de caminho, a conhecerem-se e a descobrirem-se. Não importa tanto o lugar que ocupam no ranking como a pessoa que são.

Muitas vezes, os elogios e a pressão transmitidos por pais e educadores, com a melhor das intenções, podem ajudar a colar um “eu ideal” a cada criança, criando uma espécie de prisão de identidade: “És o melhor”, “ninguém sabe fazer isto tão bem como tu”, “és o mais inteligente”. E se um dia, aparecer alguém melhor do que a Beatriz na turma? Se o Francisco ficar no banco? Se o Joaquim torcer o pé? Ou se, simplesmente, quiserem mudar? Investir noutra coisa?

Num mundo cada vez mais focado nos resultados, importa valorizar também o caminho, o esforço, a curiosidade, a originalidade e a pessoa como um todo, em vez de transformar a competência numa identidade.

Até porque estamos constantemente a mudar.

De que forma irá uma jovem, que desde criança foi uma bailarina exímia – que dedicou quase tudo à dança –, lidar com uma lesão ou com o momento em que começa a perguntar-se se quer realmente continuar? Como enfrentar esta nova versão de si e a desilusão dos outros? O que fica?

Sobretudo na adolescência, construir uma nova imagem de nós próprios implica, muitas vezes, deixar cair outras antigas. Identidades que funcionaram durante algum tempo, mas que já não nos assentam bem.

Talvez crescer seja também perceber que não somos obrigados a permanecer fiéis à pessoa que nós e os outros aprendemos a admirar. E que podemos deixar de ser os melhores sem deixarmos de ser nós.

Ronaldo acaba por tornar esta questão evidente. Talvez seja uma oportunidade para ensinarmos aos mais novos não apenas a superarem-se, mas também a perder, a falhar, a mudar de caminho, a descobrirem-se e a deixarem um lugar que já não podem ou não querem ocupar. E, enquanto adultos, a abrirmos mão de desejos e expectativas que, por vezes, já não lhes servem.

Porque o nosso valor é muito mais do que aquilo em que somos extraordinários e não desaparece quando deixamos de o ser.

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