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Analisando as declarações desde que entrou no Benfica (com a ajuda da IA), conclui-se que para ele treinar o Benfica é “o maior desafio” da carreira, fala em “honra, orgulho e responsabilidade” e pede paciência para construir uma “identidade dominadora”. Quando a equipa perde, puxa a responsabilidade para dentro, coisa rara em Portugal, uma saudável extravagância. Por exemplo, a seguir à derrota no Dragão foi muito claro: “Nós é que perdemos o jogo”. E logo a seguir concentrou-se na falta de “equilíbrio emocional” dos seus jogadores.
Marco Silva consegue até ser autocrítico e admite que é “um bocado mais chato do que deveria ser” no banco, embora tente controlar-se e ser “o primeiro a penitenciar-se” quando não consegue. E sabem que mais? O treinador do Benfica desvaloriza o próprio papel nos êxitos, dizendo sobre a chamada de Palhinha à seleção que “o mérito é do jogador”. O lado conciliador aparece na defesa pública da equipa, mas sem exageros piedosos — veja-se o escudo que fez a Trubin a propósito das notícias de venda, que classificou de “injustas e duras”. Percebia-se que estava a ser genuíno, não era fita e em momento algum foi colérico.
Quanto à arbitragem, não é um assunto recorrente, mas também não o evita por completo: desde a apresentação que avisa que não é fã de falar de arbitragem todas as semanas e, regra geral, remete o assunto para o clube (“se o clube tiver de dizer alguma coisa, o clube deve dizer”). A exceção foi o jogo com o FC Porto, após a expulsão de Lenglet, onde deixou a frase mais dura do seu mandato: “Venho de uma cultura diferente. Aqui, infelizmente, consegue-se condicionar árbitros antes dos jogos, depois dos jogos, durante a semana”. Uma observação dolorosa e verdadeira.
Resumindo: reclama pontualmente e sem vitimismo declarado, com ironia quando provocado (respondeu assim às palavras de Farioli), mas prefere canalizar a frustração para a exigência interna — pedindo mais intensidade e maturidade à equipa — do que para uma guerra aberta com os árbitros.
Marco Silva é um homem sério e um treinador competente, não um histérico em incesto com o próprio ego. É um tipo que não se disfarça como tantos outros com a baba bovina da humildade a pender-lhe dos lábios quando precisa — quer a nossa atenção e quer resultados, mas não vende a alma ao diabo, não manipula e não vicia a conversa com mentiras para salvar a pele.
O Benfica — que não é o meu clube — encontrou o seu Rúben Amorim e esta foi a melhor notícia do futebol nesta época em Portugal. Puxa todos para cima num campeonato ainda muito rasteiro. Marco Silva é um decisor que assume os próprios erros e respeita o espaço público, um contributo estimulante que alimenta o sentido de exigência de todos, serena um ambiente cada vez mais medíocre e, tudo isto somado, aumenta as possibilidades de êxito do Benfica. E agora vou ali penitenciar-me.