Voltar
Portugal tornou-se presença habitual nos pódios das grandes competições internacionais numa vertente em que só começou a construir os alicerces do sucesso há 15 anos. O Velódromo de Sangalhos, o selecionador Gabriel Mendes e o talento de uma geração de ouro explicam a ascensão de Portugal à elite do ciclismo de pista, coroada com quatro medalhas na China.
As medalhas multiplicam-se, os títulos acumulam-se e Portugal já se habituou a discutir os primeiros lugares com as maiores potências do ciclismo de pista. Mas, por detrás dos êxitos, não há fórmulas mágicas. Há um projeto que começou a ganhar forma em 2009, com a inauguração do Velódromo Nacional, em Sangalhos, e que encontrou na continuidade técnica e no talento de um pequeno grupo de atletas os ingredientes para uma ascensão que voltou a ter expressão nas quatro medalhas no Mundial de Xangai, o melhor resultado de sempre.
Cândido Barbosa, presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo desde novembro de 2024, reconhece que os louros pertencem a um trabalho iniciado muito antes da sua chegada. "São frutos que vêm de há muitos anos, desde que se fez o investimento no velódromo. Esta Direção tem feito tudo para continuar e melhorar esse trabalho", afirmou o dirigente a O JOGO.
A construção da pista coberta, que permitiu treinar regularmente durante todo o ano, foi acompanhada por outra decisão determinante: a aposta em Gabriel Mendes, selecionador desde 2010. "A Federação, em boa hora, fez o investimento num técnico exclusivo só para a pista, que é o Gabriel. O empenho dele tem sido essencial para estes sucessos", sustenta.
Ao longo de 16 anos, Gabriel Mendes desenvolveu um trabalho de preparação especializada, num desporto em que a condição física, por si só, não chega. É preciso dominar a bicicleta, antecipar movimentos e tomar decisões em frações de segundo, muitas vezes a velocidades superiores a 60 km/h. "O atleta pode estar em forma, bem preparado, com andamento físico, mas a técnica demora anos a apurar. Tem de ser um trabalho contínuo", explica Barbosa, que aponta Iúri Leitão como um exemplo.
Os primeiros sinais da afirmação surgiram em 2018, mas foi em Paris'2024 que a seleção deu o salto definitivo. Iuri Leitão e Rui Oliveira sagraram-se campeões olímpicos de madison, corrida por pontos disputada em duplas, e Leitão conquistou ainda a prata no omnium, competição que reúne quatro provas.
A versatilidade dos corredores é outra das forças desta geração. Todos são profissionais da estrada, conciliando os compromissos das respetivas equipas com a preparação específica da pista. De Xangai, Iúri Leitão, Ivo Oliveira, Maria Martins e Miguel Salgueiro trouxeram medalhas e a melhor participação portuguesa de sempre num Mundial.
Os recentes êxitos internacionais estão a dar impulso ao ciclismo de pista e a despertar o interesse dos mais jovens. Cândido Barbosa, líder da federação, acredita que as medalhas conquistadas em Paris e no Mundial vão atrair novos talentos. O dirigente aponta a um número de praticantes que ronda já a centena, admitindo que esta vertente do ciclismo "tem um enorme potencial para crescer e atrair atletas, da estrada ao BTT".
Federação quer requalificar recintos ao livre espalhados pelo país para captar mais talentos e garantir a renovação
A procura dos próximos campeões está a levar a Federação Portuguesa de Ciclismo a apostar nas pistas abertas, aproximando a modalidade de jovens de diferentes regiões. "Organizámos uma Taça de Portugal de pista aberta e a participação foi muito boa", destacou Cândido Barbosa a O JOGO, explicando que a iniciativa pretende também atrair praticantes da estrada e do BTT. O presidente federativo aponta a requalificação da pista de Alpiarça, refere intervenções em Loulé e Tavira e a intenção de recuperar a da Malveira. Está ainda em perspetiva a construção de uma pista em Oeiras, embora sem prazos definidos. O objetivo é alargar a competição a mais localidades e aumentar o número de provas. "Poderemos aspirar a que outros jovens possam aderir à pista e garantir a renovação da seleção", sublinhou Cândido Barbosa.
A Federação mantém conversações com o Governo para reforçar os meios do ciclismo de pista. Luís Montenegro já visitou várias vezes o Velódromo de Sangalhos e Cândido Barbosa garante que conhece as necessidades, revelando existir a promessa de uma segunda fase de investimento em equipamentos. "O diálogo com a tutela tem sido muito saudável e estes êxitos confirmam que os apoios estão a dar frutos", afirmou, destacando a abertura do secretário de Estado, Pedro Dias, embora sem mencionar prazos: "O secretário de Estado sabe as necessidades".