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Na vitória de virada do Real Madrid por 4 a 3 sobre a Roma, pela Liga dos Campeões, Endrick entrou no lugar de Vinicius Junior durante o segundo tempo, quando seu time perdia por 3 a 1. Ele fez um gol, participou de outro, além de algumas ótimas jogadas. Na véspera da partida, o treinador José Mourinho disse que ele não será emprestado.
Vinicius teve mais uma apagada atuação. Pior, foi suspenso por quatro jogos no Campeonato Espanhol, dois por puxar o cabelo do adversário e dois pela postura ofensiva contra o árbitro. Pelos noticiários da imprensa espanhola, receio que Vini passe a ter rotineiramente um comportamento afetado, de celebridade, parecido com o de Neymar.
O mesmo ocorreu com Ronaldinho Gaúcho, quando ele jogava no Barcelona, após ter sido eleito, merecidamente, melhor do mundo. Diziam que Ronaldinho estava encantado com a personagem criada por ele. A criatura engoliu o criador.
Gabigol, após muitas glórias no Flamengo, pisou na bola durante os anos seguintes, perdeu prestígio e agora começa a se recuperar no Santos. Maradona se perdeu pelos caminhos do sucesso. Foi punido por doping na Copa do Mundo, tornou-se um usuário de drogas e teve um triste fim.
Muitas outras pessoas famosas, em todas as áreas, encantam-se com a glória. Uma das deficiências humanas é a fraqueza, a necessidade de ser aprovado e aplaudido pelo outro. O tímido e sóbrio craque Dirceu Lopes dizia que nenhum ser humano está preparado para a fama. O sucesso costuma empobrecer o indivíduo. Muitas pessoas famosas costumam confundir o público com o privado, o criador com a criatura. Há exceções.
Os grandes atletas são, como Messi, os que, além de enormes talentos, conseguem unir o desejo e a obsessão pelo sucesso com a seriedade profissional e o equilíbrio emocional. Querem sempre ultrapassar os limites, porém sabem que o futebol é um esporte coletivo e que precisam do equilíbrio emocional, do conjunto e do outro para brilhar.
Pelé, o maior de todos, estava sempre bem-humorado, tranquilo. Demonstrava estar feliz por ser o Pelé. Parece óbvio, mas não é. As celebridades costumam ter comportamentos conflitantes, pela falta de acordo entre o indivíduo e a personagem. Edson e Pelé pareciam ser a mesma pessoa. Como ele já era muito famoso aos 17 anos, tenho a impressão, e posso estar enganado, de que o Edson foi incorporado ao Pelé.
Os treinadores, comissões técnicas, dirigentes, torcedores e jornalistas, além de explicar as quedas de rendimentos de atletas por questões técnicas e táticas, deveriam pensar nos fatores emocionais, frequentes e determinantes nos sucessos e fracassos. Recentemente, alguns atletas campeões de outros esportes pararam de atuar por variados tempos para cuidar da saúde mental.
Mesmo com o aumento do número de profissionais da área de psicologia trabalhando diariamente nos clubes brasileiros, eles são ainda poucos. É inadmissível a ausência de psicólogo(a) em uma comissão técnica.
O futebol brasileiro está doente, dentro e fora de campo. O paciente tem melhorado, mas é preciso ficar atento para que não aconteçam recaídas. Para o doente ficar curado, é necessário haver transformações estruturais, desconstruções, reconstruções, não apenas mudanças ocasionais.