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O outro mundo de Leandro Barreiro: fala sete línguas e toca piano
Leandro Barreiro
Leandro Barreiro

Leandro Barreiro, jogador do Benfica, evita falar sobre futebol em casa. "Já tenho treinos e jogos suficientes. Se também falar de futebol nos tempos livres, torna-se demasiado. Quase não vejo futebol", atira

Leandro Barreiro, 26 anos, cumpre a terceira temporada no Benfica, após quase uma década nos alemães do Mainz. O médio, nascido no Luxemburgo, atrevido e muitas vezes protagonista a nível futebolístico, intrometendo-se com frequência nas escolhas principais do treinador, mostra-se menos exuberante e prefere manter alguma discrição a nível pessoal.

Em entrevista ao Luxemburger Wort, abordou o outro lado da sua vida, as suas preferências fora dos relvados. O multifacetado Barreiro, fala sete línguas, entre as quais japonês, toca piano, e não gosta de falar sobre futebol na vida privada. É, no entanto, com o seu "mental coach" que partilha a sua visão do Mundo. Os pais "continuam a viver no Luxemburgo", mas viajam para Portugal com frequência para assistirem aos jogos do filho.

"É claro para mim, desde o início, que a minha vida privada só a mim diz respeito. Se alguma vez acontecer alguma coisa, não quero que o mundo inteiro fique a saber. O único acompanhamento profissional de que preciso é o do meu "mental coach". Trabalha comigo há quase seis anos. Analisamos tudo e procuramos métodos que me permitam lidar melhor com situações difíceis. Falo com ele sobre tudo, porque considero que tudo influencia o meu desempenho em campo. Mantemos contacto quase todos os dias. Trocamos mensagens e fazemos uma chamada através do Zoom uma vez por semana ou de quinze em quinze dias. Quando a agenda dele o permite, vem a Lisboa por uns dias para treinarmos juntos", revela.

Leandro Barreiro é um apaixonado pelo anime, mas vai muito além disso, pois gosta também de "tocar piano, ler, passear e passar tempo com o cão". Mas há outra paixão da qual não faz segredo. O gosto pelas línguas surgiu cedo no seu caminho e o japonês não foi exceção. Barreiro utiliza a aplicação Duolingo [programa para aprender línguas] para se familiarizar com a língua, recusando um "professor particular, pois isso significaria mais um compromisso" na vida do médio.

"Não conseguia discutir política em japonês"

"Aprender com a aplicação pode não ser o melhor método, mas para mim é suficiente. Conseguiria orientar-me em Tóquio, embora não conseguisse ter uma discussão sobre política, conseguiria pedir água no hotel ou perguntar como chegar à estação. Já estive duas vezes no Japão", reage o jogador das águias, sensível à aprendizagem de "novas línguas".

"A escrita japonesa é demasiado complicada para mim. Quero ser capaz de falar, não de escrever", admite. Nos tempos livres, ao contrário do que se poderia pensar, tenta passar ao lado do futebol, confessando que os únicos jogos que vê "são os do Mainz [antigo clube] e, às vezes, um grande jogo da Liga dos Campeões". "Há alguns anos, não teria dito nada sobre isso, mas entretanto tornei-me um pouco mais descontraído. Tento passar o tempo que tenho com a minha família e falar sobre outras coisas. Já tenho treinos e jogos suficientes. Se também falar de futebol nos tempos livres, torna-se demasiado. Quase não vejo futebol", atira.

Barreiro diz que amadureceu "muito cedo", compreendeu o que era necessário para ter uma "carreira bem-sucedida" e teve a "sorte de ter uma família muito presente". "Tenho a sorte de contar com uma família que me apoia plenamente. Desde muito cedo, fizeram de tudo para me proteger de coisas que poderiam ter um impacto negativo em mim. Vivi numa bolha bem protegida e tive as melhores condições possíveis para seguir esse caminho", contou, esclarecendo: "Os meus pais são simplesmente incríveis! É preciso ter sorte na vida. Não temos forma de controlar quem são os nossos pais ou qual a sua postura. Os meus pais nunca me pressionaram para me tornar atleta profissional. O objetivo era que me divertisse e gostasse do que fazia. Tentavam estabelecer paralelos entre aspetos das suas próprias vidas e o desporto profissional, explicando que haveria momentos difíceis em que precisariam de cerrar os dentes e seguir em frente. Com o tempo, aprendi muito sobre mim e sobre a influência das outras pessoas. Passo a passo, desenvolvi uma forma de lidar com tudo da melhor maneira possível."

"Sou um embaixador do Luxemburgo"

A chegada ao Benfica deu-lhe visibilidade, mas o jogador confessa que "nos últimos dois anos", a sua vida "não mudou a ponto de já não poder sair à rua". "As pessoas querem dar-me força e desejam que o Benfica conquiste o título de campeão. Talvez me digam mais vezes que fiz um bom jogo e que sou importante para a equipa. Quando vou a um café, abordam-me para falar do Benfica. As pessoas ficam contentes quando veem um futebolista num café, numa farmácia ou num supermercado. Reconhecem-me e querem falar comigo. Tento tratar com respeito todas as pessoas que se aproximam de mim e fico contente com cada comentário positivo".

Igualmente simpáticas, mas menos arrebatadoras são as reações dos adeptos luxemburgueses. "Em Portugal, são muito mais apaixonados. Para muitos, o clube é a coisa mais importante na vida. Às vezes, tenho de manter um pouco mais de distância para não me deixar influenciar por essas emoções", analisa. Todavia, sente-se "um embaixador do Luxemburgo" e tem "um orgulho imenso por ter a oportunidade de representar o país no panorama mundial". O médio não esconde a felicidade "quando as pessoas dizem que se sentem contentes por ver alguém do Luxemburgo chegar tão longe". "Quero mostrar que é possível alcançar grandes feitos e que não temos de nos esconder só porque vimos de um país pequeno", acrescenta o benfiquista.

"Fiz coisas de que não me orgulho"

Voltando ao passado, admite que fez "coisas de que não se orgulha" quando era mais jovem. "Houve momentos em que fiquei extremamente frustrado e irritado. Quando se é jovem, ainda não se conhecem as consequências de um erro estúpido. Lembro-me muito bem de um jogo pela equipa sub-23 do Mainz, no qual fiz algumas coisas reprováveis. Depois da partida, senti-me tão mal que fui ao balneário da equipa adversária pedir desculpa. Coisas destas não deveriam acontecer, mas fazem parte do amadurecimento de um jovem", observa, relembrando que no "início da carreira profissional, jogava menos", mas que manteve "sempre a calma" e que nunca exerceu pressão sobre si próprio para ser "titular absoluto ou para jogar a Liga dos Campeões em dois anos". "Simplesmente dava cem por cento nos treinos e nos jogos, convencido de que a recompensa acabaria por chegar. Até agora, sempre tive razão".

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