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Os apanha-bolas foram domesticados. Houve um tempo em que o ser humano mais influente num relvado não recebia salário. Ele usava um fato de treino, por vezes três números acima do seu tamanho e passava a tarde/noite a levar com chuva nas costas. O apanha-bolas não era um mero figurante; era um ativo nas margens do campo.
A posse de bola é sagrada. Assim, aquele rapaz sentado num banquinho controlava o botão de play e pause.
Se a equipa da casa estava a perder, a bola chegava às mãos do jogador ainda a queimar. Era um passe teleguiado de quem conhecia de cor a diagonal do contra-ataque. Contudo, se a equipa da casa estava a ganhar por 1×0, aos 87 minutos, a bola transformava-se num artefacto arqueológico. Isto é, ela desaparecia por baixo das lonas publicitárias ou escorregava das mãos (sem querer!). Ou seja, o apanha-bolas era o dono do relógio.
Alguns treinadores lendários rapidamente perceberam o poder daquela ‘equipa’ nas margens do relvado. O apanha-bolas deixou de ser o miúdo da formação que ia ver os ídolos de graça para ser peça de xadrez no jogo.
E existem até alguns episódios que ficaram mundialmente marcados. Por exemplo, no Tottenham, José Mourinho correu meio-campo para abraçar Callum Hynes depois de uma reposição relâmpago do apanha-bolas, que resultou em golo contra o Olympiakos para as provas europeias.
Além disso, depois, o treinador português levou o apanha-bolas ao balneário, pagou-lhe o almoço e tratou-o como quem descobre um novo Cristiano Ronaldo na arte da reposição de bolas.
Em Madrid, na primeira passagem pelo Real Madrid, dava ordens diretas para ninguém devolver bolas aos jogadores do Barcelona, forçando os catalães a perderem a cabeça a ir buscá-las à bancada.
Aliás, percebendo a importância dos apanha-bolas, Pep Guardiola chegou a desenhar sessões teóricas para os rapazes da academia do Manchester City. O técnico, apaixonado pelo detalhe no futebol, exigia que a bola fosse colocada no peito dos laterais antes mesmo de a defesa adversária recuar as linhas.
Em Anfield, também Klopp fez o mesmo. O lendário canto de Alexander-Arnold contra o Barcelona em 2019 só existiu porque Oakley Cannonier, então com 14 anos, estava treinado para entregar a bola no segundo em que os catalães virassem as costas.
O jovem apanha-bolas da formação do Liverpool seguiu à risca as instruções do clube: entregar a bola instantaneamente. Ao atirar a bola para Alexander-Arnold enquanto a defesa do Barcelona ainda estava de costas, permitiu o célebre canto rápido para o golo de Origi.
Ou seja, durante anos, em várias latitudes do futebol, o apanha-bolas era um 12º jogador, capaz de dar uma assistência para golo.
De miúdos apaixonados pelo clube com um guião sério e ativo no jogo, rapidamente, a estratégia de treinar apanha-bolas passou a ser tema entre os adversários.
Em 2013, um apanha-bolas atirou-se para cima da bola para segurar a eliminatória do Swansea contra o Chelsea e obrigou Eden Hazard, já desesperado, a chutá-lo na linha de fundo. Aí, o futebol entendeu que os limites estavam ultrapassados.
Por outro lado, também em Portugal, os apanha-bolas colecionaram episódios polémicos. Algumas bolas sumiam misteriosamente no túnel, outras bolas foram atiradas para o relvado para travar contra-ataques iminentes de adversários.
As multas aplicadas pelas instâncias que tutelam o futebol português não travaram estas estratégias para ganhar. Em Portugal como no futebol lá por fora, a ‘manha’ tinha ficado visível. E era necessário fazer algo.
A resposta da FIFA, UEFA e de federações internacionais não foi multar os rapazes mas, sim, tirar-lhes protagonismo.
Com a introdução do sistema multibola deu-se a maior despromoção na história do desporto. Assim, um apanha-bolas está proibido, por protocolo regulamentar, de entregar a bola diretamente na mão de um jogador.
Em vez disso, a bola tem de ser colocada em suportes plásticos (cones, sinalizadores) espaçados milimetricamente ao longo das linhas laterais. Se o jogador quiser bater rápido, tem de ir ele mesmo buscar a bola ao suporte.
A função do apanha-bolas foi reduzida a isto: esperar que a jogada termine, apanhar a bola que saiu de campo e ir repor o stock no cone vazio, longe da ação, sem olhar nos olhos de ninguém, sem acelerar nem atrasar.
Num ápice, o rapaz que decidia jogos foi transformado num funcionário de armazém. Acabou a manha, acabou a piscadela de olho ao público, acabou o passe milimétrico para o golo histórico. E acabaram os heróis dos treinadores quando desbloqueavam (ou bloqueavam, depende da perspetiva) jogo.
Hoje, os miúdos da formação continuam ali, ao frio e à chuva, ao calor também mas já não sonham com o momento em que vão mudar o destino do campeonato. O cone de plástico substituiu a esperteza da rua. O apanha-bolas foi domesticado pelo regulamento.
Atualmente, há regras apertadas para os apanha-bolas. E também em Portugal, à imagem do que acontece na Premier League e nas provas da FIFA e UEFA, por trás de cada reposição de bola há um manual de instruções rigoroso imposto pela Liga portuguesa. Algumas das regras, a maioria dos adeptos desconhece.
Para provar que não és apenas mais um “treinador de bancada”, preparamos um desafio rápido de perguntas sobre os deveres, proibições e limites de quem é apanha-bolas e está a poucos centímetros do relvado. Responde ao quiz e descobre o teu nível de conhecimento.