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A polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus ganhou um novo capítulo. Depois de ter abandonado o estágio da Seleção Nacional, na Dinamarca, o capitão português está preventivamente suspenso da participação nas atividades da equipa das quinas, segundo a interpretação do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) feita por especialistas em direito desportivo.
Mas há uma diferença importante: ainda não foi conhecida uma decisão final do Conselho de Disciplina da FPF sobre a duração do castigo.
O caso pode, por isso, ainda ter vários desenvolvimentos.
O ponto central está no artigo 160.º do Regulamento Disciplinar da FPF. A norma determina que o jogador regularmente convocado que abandone ou não compareça, sem justificação, a um treino, jogo ou atividade relacionada com as seleções nacionais pode ser sancionado com um a seis meses de suspensão. Para jogadores profissionais está ainda prevista uma multa.
Mais importante: o mesmo artigo estabelece que a ausência ou o abandono determina a suspensão preventiva automática do jogador.
É por isso que especialistas ouvidos por vários órgãos de comunicação social consideram que Cristiano Ronaldo já se encontra impedido de representar a Seleção enquanto o processo disciplinar decorre.
Não significa, porém, que já esteja determinada a duração definitiva da suspensão.
Essa decisão caberá ao Conselho de Disciplina.
Cristiano Ronaldo deixou a concentração de Portugal em Copenhaga a 30 de setembro, na véspera do jogo com a Dinamarca. A saída aconteceu depois de uma série de episódios relacionados com a sua utilização por Jorge Jesus.
Ronaldo não saiu do banco no jogo frente à Noruega, apesar de ter aquecido durante parte da segunda parte. O jogador ficou insatisfeito e, nos dias seguintes, a relação com o selecionador deteriorou-se.
A 6 de outubro, Ronaldo decidiu finalmente contar a sua versão dos acontecimentos. Num comunicado extenso, o jogador afirmou que Jorge Jesus lhe tinha garantido que teria cerca de 30 minutos frente à Noruega, algo que acabou por não acontecer. Ronaldo considerou que houve uma quebra de confiança e explicou que foi essa situação, aliada a outros episódios, que o levou a abandonar o estágio.
Mas houve uma parte do comunicado especialmente importante para o processo disciplinar. Ronaldo assumiu a responsabilidade.
“Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio”, escreveu o jogador, reconhecendo que não deveria ter tomado essa decisão.
E foi ainda mais longe: afirmou que a consequência do seu comportamento deveria ser avaliada e punida pela Federação.
É aqui que o caso pode ficar particularmente interessante do ponto de vista disciplinar.
Segundo a análise de um advogado e juiz do Tribunal de Futebol da FIFA citada por A BOLA, a confissão integral e sem reservas dos factos pode permitir uma redução dos limites da sanção previstos no regulamento.
O cenário apresentado pelo especialista é significativo. Partindo do limite mínimo de um mês de suspensão e 510 euros de multa, uma redução para metade poderia levar a uma sanção de 15 dias de suspensão e 255 euros de multa, caso o Conselho de Disciplina entenda que estão reunidos os pressupostos para aplicar essa redução.
É, no entanto, apenas uma possibilidade jurídica, não é ainda o castigo aplicado a Cristiano Ronaldo. A decisão final cabe ao órgão disciplinar da FPF.
Há outro detalhe pouco habitual nesta história. No seu comunicado, Cristiano Ronaldo não tentou fugir às consequências do abandono. Pelo contrário.
O capitão da Seleção reconheceu que tomou uma decisão errada e afirmou estar disponível para cumprir a punição que lhe for aplicada.
Mais do que isso, escreveu que, depois de cumprir a suspensão, pretende continuar disponível para representar Portugal, desde que esteja fisicamente bem e a jogar pelo Al Nassr.
A mensagem deixa, portanto, uma porta aberta para o regresso à equipa das quinas.
É precisamente aqui que a duração do castigo pode fazer toda a diferença. Portugal volta a ter compromissos internacionais em novembro, com jogos frente à Dinamarca e ao País de Gales previstos para essa janela. A suspensão preventiva já começou a contar, segundo a interpretação dos especialistas.
Se a decisão final for relativamente curta, existe a possibilidade de Ronaldo cumprir a totalidade, ou uma parte significativa, da suspensão antes dos próximos compromissos da Seleção.
Mas tudo dependerá da decisão do Conselho de Disciplina e da forma como for contabilizado o período de suspensão preventiva.
Enquanto Cristiano Ronaldo apresentou publicamente a sua versão dos acontecimentos, Jorge Jesus optou por não responder às acusações.
A 7 de outubro, o selecionador confirmou ter lido o comunicado de Ronaldo, mas recusou prolongar a discussão. “Li o comunicado. Agora faço como todos os dias. Vou para a Federação trabalhar, pensar na equipa e na Seleção portuguesa”, afirmou.
Também Pedro Proença, presidente da FPF, tinha anteriormente desvalorizado o conflito, classificando-o como um “mal-entendido” e manifestando a expectativa de que Ronaldo pudesse regressar à Seleção em novembro.
Agora, porém, existe um processo disciplinar que terá de seguir o seu caminho.
O caso de Ronaldo tem ainda um precedente que ajuda a perceber a dimensão da situação.
Em 2011, Ricardo Carvalho abandonou um estágio da Seleção depois de perceber que não seria titular frente ao Chipre. O defesa-central acabou por ser suspenso por um ano de todas as atividades da Seleção Nacional, além de perder prémios de qualificação.
Há, contudo, diferenças entre os dois casos e não é possível concluir que Ronaldo terá uma punição semelhante.
O que o regulamento atual estabelece é uma moldura de um a seis meses de suspensão, além de multa.
A polémica que começou com uma decisão de Jorge Jesus (deixar Ronaldo no banco) transformou-se numa questão disciplinar para a Federação Portuguesa de Futebol.
Cristiano Ronaldo assumiu o abandono, pediu desculpa aos colegas e aceitou ser punido. Agora falta saber quanto vai custar ao capitão da Seleção a decisão de deixar o estágio.
Por enquanto, uma coisa é certa: Ronaldo está preventivamente suspenso. O resto, incluindo o número de dias ou meses que ficará afastado da Seleção, terá de ser decidido pelo Conselho de Disciplina da FPF.
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