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Luciano Gonçalves: «Não tenho nada a esconder sobre o que quer que seja»

Presidente do Conselho de Arbitragem garante fugas de informações sobre nomeações na reta final da época passada não partiu do organismo que lidera e explica que mensagem enviada ao árbitro Hélder Malheiro estava relacionada com a final da Taça de Portugal

Luciano Gonçalves (FOTO: Instagram)

Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, aborda, em entrevista à RTP, a polémica em torno de nomeações conhecidas antecipadamente por alguns árbitros para jogos da Liga, na época passada:

Como foi possível que Hélder Malheiro tenha sabido 12 dias antes que iria apitar o Moreirense-Estrela da Amadora?

«Não sei se ele soube ou não, vou-me basear naquilo que eu sei. Do que tive conhecimento, ele transmitiu ao ex-diretor técnico nacional (Duarte Gomes) que tinha sabido essa informação 15 ou 10 dias antes da realização do jogo. Não é possível, de forma nenhuma, que ele ou alguém o tenha sabido através do Conselho de Arbitragem porque o processo é muito claro. O processo de nomeações é sempre feito no domingo à noite após os jogos, consoante os jogos do fim de semana foram decorrendo. Na segunda-feira, o processo das nomeações, no que diz respeito ao árbitro principal, é finalizado. Na segunda-feira à noite é partilhado entre os colegas do Conselho de Arbitragem, que colocam depois os árbitros assistentes, os VAR e os quartos árbitros. Depois, na terça-feira, o documento segue para a direção de arbitragem, que vê em cada jogo se há incompatibilidades, ou não. Volta para nós, que validamos, e fica público na quarta ou quinta-feira, mediante a nossa estratégia de comunicar.»

«Tendo em conta o que foi a informação que foi partilhada ao presidente do Estrela da Amadora numa reunião na Cidade do Futebol, após um pedido que ele fez para visualizar as imagens de um jogo em que se sentiu prejudicado, tal como 61 que fizemos no ano passado com vários dirigentes e clubes, no final dessa reunião, onde estava o Diretor Técnico e o responsável pela parte tecnológica, ele disse para se ter algum cuidado com os árbitros mais experientes, e o que lhe transmiti foi que, nas últimas quatro jornadas (da Liga), todos os clubes que estivessem em risco de descida ou com possibilidade de serem campeões ou de ir à Europa, e os que estavam para subir na II Liga, iriam ter árbitros internacionais e não internacionais.»

É normal pedirem para ter atenção aos árbitros que nomeia?

«É normal e eu promovo isso. Para mim, é normal esta abertura e esta partilha de opiniões. Tráfico de influências? Não, não. Os presidentes de todos os clubes da I e da II Liga têm o meu contacto. Ninguém sugere árbitros, não é disso que estamos a falar. O que estamos a falar era sobre o processo. Não foram escolhas. Pediu para se ter cuidado, naquela fase, mas pediu ele como todos os clubes que foram lá. A partir do momento em que se diz que os jogos mais importantes e mediáticos irão ter os árbitros internacionais e não internacionais, depois é uma questão de matemática. É fácil de se fazer. São nove árbitros internacionais, mais dois dos mais experientes, André Narciso e Hélder Malheiro, são 11. Com as equipas que temos a lutar para serem campeãs, para ir à Europa, para descer, que naquele caso eram cinco, de baixo igual…»

«Aquilo que qualquer presidente demonstra, seja agora ou na última jornada, é que quer que os árbitros que vão arbitrar os seus jogos sejam os mais experientes. É apenas nesse âmbito.»

Mensagem enviada a Hélder Malheiro a garantir ao árbitro que, no ano seguinte, iria continuar na primeira categoria se o Estrela da Amadora vencesse?

«Não, não respondi da forma como colocou (a pergunta). Sim, enviei essa mensagem ao árbitro Hélder Malheiro, que nada tem a ver com o tema que é público. Até porque basta percebermos aquilo que o próprio árbitro disse em sede do Conselho de Justiça, quando foi a audição. Disse categoricamente que nunca acreditou que fosse para esse fim. Tinha a ver com o enquadramento da final da Taça de Portugal. O árbitro Hélder Malheiro, no dia 23 de abril, estava no final da sua carreira. Chamámos o Hélder Malheiro e mais três colegas que estavam no limite da idade e dissemos-lhes que não os íamos convidar para continuarem, mas apresentámos a nossa visão para cada um deles, o que poderiam ficar a fazer, e escolher um jogo para ser o final. Nesse dia, o Hélder Malheiro, às 14h00, envia-me uma mensagem a dizer “obrigado, presidente, o jogo que gostaria para terminar a minha carreira era o da final da Taça de Portugal”. Emocionalmente, não fui suficientemente forte, pela ligação de 25 anos que tenho com ele enquanto colega árbitro. Devia ter-lhe dito logo que não havia hipótese de ser o árbitro da final, mas foi um momento comovente, ele estava a fazer conta em continuar. Custou-lhe muito aquela despedida. Nunca mais coloquei o tema da final da Taça de Portugal. A mensagem era a dizer-lhe que ele era uma hipótese para a final da Taça de Portugal, nada mais.»

Porquê pedir silêncio na mensagem?

«Tinha a ver com ele não utilizar, ou existirem prints, a dizer que eu tinha uma relação com aquele árbitro de uma forma diferente da que tenho com os outros.»

Apagar a mensagem aumenta as suspeitas

«Reconheço essa parte.»

Está disponível para entregar às autoridades todos os registos relacionados com este caso?

«Não só estou disponível, como estou ansioso para que isso efetivamente aconteça. Para que este caso seja o mais rapidamente esclarecido. Não tenho nada a esconder sobre o que quer que seja. Ainda nem sequer fui contactado.»

O que fez depois de conhecer o caso?

«No dia 25 de maio, no primeiro contacto com o Duarte Gomes, anterior Diretor Técnico Nacional, sobre este tema, ele disse-me que tinha conhecimento de uma situação irregular grave. A partir desse momento, a primeira coisa que fiz dizer-lhe que ia marcar uma reunião com os envolvidos. Marquei-a no dia 27 de maio, às 10h00 com o Hélder Malheiro e às 11h00 com o Hugo Ribeiro, que era o assistente, para perceber de onde tinha surgido isto. Eles disseram-me que tiveram acesso a essa informação através de um ex-árbitro assistente, que não está no Conselho (de Arbitragem), que trabalha com alguns clubes. Segundo o Hélder Malheiro, foi ele que partilhou com eles essa informação. Nunca falei com esse assessor, mas era importante saber, com o Hélder Malheiro e o Hugo Ribeiro, como é que aquilo tinha surgido. E como tinha sabido da nomeação 15 dias antes, não mo transmitiram, foram fazer o jogo e só o comunicaram mais tarde. Queria saber o porquê. Ele explicaram que não valorizaram nem acharam aquilo importante tendo em conta que esse senhor ex-árbitro era normal ter este tipo de teorias.»

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