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«Leonardo Jardim perguntou-me se já sei o que são noites sem dormir a sério»

Miguel Moita, antigo adjunto do treinador do Flamengo, deixa elogios ao técnico e recorda o trabalho com Bernardo Silva e Luís Campos no Mónaco

Miguel Moita (Arquivo pessoal)

Desde o Chaves até ao Al Rayyan, passando por Sporting, Mónaco ou Al Hilal, Miguel Moita foi o fiel escudeiro de Leonardo Jardim nas várias aventuras do treinador madeirense, ao longo de 16 anos. Na primeira experiência enquanto treinador principal, Moita teve o mérito de vencer a II Liga portuguesa, em 2025/26.

Fora do ativo, o treinador concedeu uma entrevista ao Maisfutebol sobre a passagem vitoriosa, mas curta, no Marítimo, terminada por iniciativa do treinador. Tudo começou em 2007, como observador do Chaves, na terceira divisão nacional. Miguel Moita sentiu-se «confortável» na pele de treinador principal mas confirma o aviso de Leonardo Jardim – chegaram as «noites mal dormidas».

O minhoto deixa elogios à «metodologia pragmática» de Leonardo Jardim, ao pulso firme de Luis Campos como diretor-desportivo e ainda avalia o momento de um jovem que ajudou a desenvolver-se no Mónaco – Bernardo Silva.

Parte I - Miguel Moita, dos trails aos convites do Médio Oriente: «Quero Portugal»

Parte II - «Leonardo Jardim perguntou-me se já sei o que são noites sem dormir a sério»

Maisfutebol: Qual foi a principal aprendizagem na transição de treinador adjunto para treinador principal?

Miguel Moita: É inegável que estamos muito mais expostos. Há um trabalho de background que eu pensava de forma mais descontraída e que, enquanto treinador principal, era o dia a dia. A comunicação diária com jogadores, imprensa e adeptos desgasta mais. Enquanto treinador principal, é muito difícil sair da pele de treinador. Vamos para casa a pensar em que dinâmicas ou posicionamentos são melhores. Se não for isso, é o que vamos dizer à imprensa. O Leonardo Jardim dizia muitas vezes isto. Ele esteve comigo na Madeira e disse-me: 'Então, já sabes o que são noites sem dormir a sério?' [risos]. Há noites que são dormidas muito rápido. A responsabilidade de quem dá a cara nos bons e maus momentos é diferente. Ainda assim, senti-me muito confortável e bem nesse papel.

Como recorda os primeiros anos de carreira como observador e o início da colaboração com Leonardo Jardim?

No início, no Chaves, em 2007/2008, desempenhava várias funções: apoiava na preparação física e fazia observação. Como os jogos da II B decorriam ao domingo, ia ver os adversários no terreno, elaborava os relatórios e participava nos treinos durante a semana. Sendo licenciado em Educação Física, aproveitava essas competências. Foi um ano de enorme aprendizagem ao lado de alguém com experiência e uma ambição enorme de ganhar. O Leonardo tinha passado em dois ou três clubes da Madeira. Costuma-se dizer que quando se sai da Madeira, é o vai ou racha. Deixou a família na Madeira e arriscou tudo. Lembro-me da energia, da capacidade de organização e da objetividade do Leonardo Jardim, sem espaço para romantismos, lições que guardo para sempre.

Nunca mais vi um diretor desportivo como Luís Campos"

Em poucos anos chegaram ao Mónaco.

Ingressámos no Mónaco em 2014/2015. Foi um percurso ascendente, iniciado com duas subidas consecutivas no Chaves e no Beira-Mar. Pegando sempre em equipas com objetivos ascendentes. Essa progressão permitiu-nos trabalhar com atletas e dirigentes de topo mundial. Destaco o Luís Campos no Mónaco, a figura mais competente que conheci na função de diretor desportivo. Não pode aparecer só nos bons momentos e valer pelas ligações que tem. Tem de tirar desgaste ao treinador quando alguém sai da linha. Entrar em ação e ter um discurso forte. Nunca mais vi ninguém a fazer isso como ele. 

Tem mantido contacto com Leonardo Jardim durante a sua passagem pelo Flamengo?

Não falamos diariamente, pois somos ambos reservados, mas mantemos o contacto e o respeito mútuo. Estive no Brasil há algum tempo e não foi possível estarmos juntos. Falamos nos aniversários e pouco mais. Mas estou muito contente com o seu percurso no Flamengo. A adaptação inicial no futebol brasileiro é exigente, as coisas nem sempre correram bem, mas o período de trabalho intensivo que tiveram em Portugal permitiu consolidar ideias. No Brasil, a gestão das competições é muito importante. Ali só treina quem joga menos. Vai ser um campeonato a dois muito interessante de acompanhar.

Qual é o principal mérito do método de Leonardo Jardim?

Trata-se de uma metodologia pragmática e muito bem vincada. Ele é muito versátil no sistema. Ao contrário de treinadores que se prendem a um sistema fixo, o Leonardo adapta a estrutura tática às características dos jogadores e ao adversário, alternando entre diferentes modelos sem problema. Há muitos treinadores que mudam de exercícios nos treinos, mas ele só muda umas nuances. Além disso, não gosta de risco. Não gosta de jogar com a linha de fora de jogo e de jogadores a levantarem os braços. É algo que eu trouxe também para mim no Marítimo. É também fortíssimo a organizar equipas em transição rápida e exploração da profundidade. São mais fortes nisso do que no jogo posicional. Quando dão algum espaço nas costas, é mel, como se costuma dizer [risos].

Passou também, juntamente com o Leonardo Jardim, pelo Médio Oriente, tendo sido campeão no Al-Hilal num período anterior à chegada de Cristiano Ronaldo à Arábia Saudita. Como caracteriza essa passagem e o futebol nessa região do globo numa altura em que o campeonato ainda não tinha a visibilidade atual?

A chegada do Ronaldo acabou por abrir o campeonato da Arábia Saudita ao mundo. Em Portugal, por exemplo, a liga passou a ser transmitida na Sport TV, o que demonstra a mudança. Posteriormente, aumentou também o número de estrangeiros permitidos na competição. Quando lá estávamos, tínhamos cerca de sete ou oito estrangeiros, mas apenas quatro podiam jogar no campeonato. Os restantes só podiam ser utilizados nas competições asiáticas. Havia sempre atletas estrangeiros de fora das opções internas, o que fazia diferença, pois eram jogadores que acrescentavam qualidade face aos atletas locais. No nosso caso, o Al-Hilal dispunha dos melhores jogadores sauditas, muitos deles internacionais e jovens promessas.

No Médio Oriente, aprendi que a cultura sobrepõe-se à tática"

O que mais aprendeu da experiência lá?

Aquilo que mais aprendi no Médio Oriente resume-se à máxima de que a cultura sobrepõe-se à tática e a tudo o resto. Se chegarmos com a intenção de impor tudo sem flexibilidade, o processo não funciona. É preciso ter muito "jogo de cintura" e respeitar hábitos culturais consolidados, como o período de rezas ou os horários de treino preferenciais. Se tentarmos agendar treinos de manhã, a predisposição dos atletas não será a mesma. Hoje a realidade pode ter mudado com a afluência de mais estrangeiros, mas a capacidade de adaptação continua a ser indispensável - e é precisamente por essa flexibilidade que os treinadores portugueses são reconhecidos mundialmente. Foi uma experiência enriquecedora pela adaptação e pelo contributo para o crescimento do jogador saudita, como o Al-Dawsari ou o Al-Bulaihi. O Al-Dawsari, que marcou o célebre golo contra a Argentina no Mundial, continua a ser titular no Al-Hilal, tem um estatuto enorme e é uma referência na seleção.

O Leonardo Jardim é o único treinador português a ter conquistado a Champions asiática.

Exato, é um feito marcante ter conquistado a Champions asiática pelo Al-Hilal. Outros treinadores conceituados passaram por lá e não alcançaram esse troféu; o Jorge Jesus esteve próximo, mas acabou por perder a final contra o Al Ain.

Existe por vezes o estigma de que os jogadores vão para a Arábia Saudita em fim de carreira, mas exemplos como o de Gabri Veiga ou a fase recente de João Félix parecem contrariar essa ideia. Com a mentalidade certa, o Médio Oriente deixou de ser um "cemitério" de carreiras?

A realidade é hoje diferente. Quando um país valoriza a abertura ao mercado externo e permite a entrada de mais futebolistas de topo, a competitividade e a exigência aumentam obrigatoriamente para os jogadores locais, que têm de rivalizar com atletas com experiência em grandes ligas. O campeonato saudita evoluiu significativamente. Não o coloco ao nível da Premier League, da Liga espanhola ou da Liga portuguesa, mas é inegável que subiu de patamar. Hoje existe exigência por parte das administrações e adeptos fervorosos; não se vai para lá passear nem fazer vida de férias. Exige-se uma proposta de valor e rigor profissional. Essa evolução foi uma decisão acertada para elevar a competitividade geral e o nível da seleção nacional saudita.

Quando Kilian Mbappé surgiu no Mónaco em 2016/2017 e acompanhou o seu crescimento, imaginava que em 2026 ele ainda não teria conquistado uma Bola de Ouro ou uma Liga dos Campeões?

Não me impressiono com isso porque o rendimento desportivo e as decisões individuais envolvem muitas variáveis. No primeiro treino, o Mbappé deixou-nos a todos impressionados: 'este rapaz é melhor do que os outros', dissemos para nós. Era destemido, ia para cima do Ricardo Carvalho sem qualquer receio e marcava golos com facilidade. Tinha algo de diferente. No entanto, evito rotular imediatamente um jovem como futuro craque mundial, pois sei que existem fatores mentais e de contexto que podem alterar percursos. Os prémios individuais dependem não apenas da qualidade do atleta, mas de toda a conjuntura envolvente. Durante o período de afirmação do Mbappé, existiram também outros colossos individuais ao mais alto nível. O mais importante é que ele se mantenha focado; este trajeto serviu para amadurecer e dar-lhe uma consistência ainda maior para alcançar esses troféus no futuro.

Lembro-me de fazer com frequência trabalho individualizado com o Bernardo nos primeiros anos"

No Mónaco trabalhou igualmente com Bernardo Silva, que tinha chegado do Benfica como uma jovem promessa num investimento de 15 milhões de euros. Que recordações guarda desse período?

Quando a nossa equipa técnica chegou ao Mónaco, o plano inicial previa um investimento megalómano. Contudo, devido a questões pessoais do presidente na altura, o projeto mudou radicalmente ao fim de poucas semanas e passámos a apostar em jogadores jovens e não validados no topo europeu, num trabalho de deteção liderado pelo Luís Campos. O Bernardo Silva vinha da formação do Benfica, sem provas dadas na primeira liga portuguesa, e teve de se adaptar a um futebol francês muito mais físico. O início da adaptação foi exigente, mas percebemos de imediato a sua inteligência futebolística. Mais do que a velocidade de deslocação, o Bernardo destacava-se pela velocidade de leitura de jogo, pela capacidade de dar pausa e ter a bola, e pela impressionante resistência física. Na Liga dos Campeões, era frequentemente o jogador que mais quilómetros percorria na equipa, com uma enorme capacidade de trabalho de alta intensidade, recuperação de bola e mudanças de direção. O Leonardo Jardim geriu de forma exemplar esse processo de crescimento, sem o lançar "aos leões" precocemente. Essa evolução progressiva permitiu que a equipa explodisse na terceira época, com a afirmação de jovens como Mbappé, Bernardo Silva, Lemar ou Fabinho, aliada à experiência de regresso do Falcão ou ao contributo de Bakayoko no meio-campo. O João Moutinho por vezes era suplente. Lembro-me de fazer com frequência trabalho individualizado com o Bernardo nos primeiros anos. Trata-se de um jogador extremamente inteligente na ocupação dos espaços, capaz de pautar os ritmos e garantir volume de jogo ofensivo quer atue na asa, no meio ou em posições mais recuadas.

A alteração do posicionamento de Bernardo Silva em campo, atuando hoje mais no meio-campo do que na ala direita, reflete a evolução natural do seu perfil?

É uma evolução natural. Os jogadores que atuam no corredor lateral exigem um esforço defensivo e uma intensidade de vaivém muito elevados. À medida que os anos passam, ganha-se experiência e leitura de jogo, mas perde-se alguma capacidade fisiológica para repetir esforços de intensidade máxima em curtos intervalos de tempo. Trata-se de um processo natural que acontece com todos os futebolistas de elite.

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